Frio, gripe e envelhecimento puxam mortalidade em Portugal para níveis alarmantes

Portugal atravessa um ciclo raro e prolongado de excesso de mortalidade: há 26 dias consecutivos com óbitos acima do esperado, vários deles a ultrapassar os 400 mortos por dia.

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Desde 10 de dezembro, Portugal regista diariamente mais mortes do que seria expectável para a época. Segundo contas do jornal Expresso, o padrão é consistente e prolongado: são já 26 dias consecutivos de excesso de mortalidade, com picos que, em datas como 27 de dezembro e 2 de janeiro, ultrapassaram os 485 óbitos — mais de 37% acima da linha de base considerada normal.

Antes deste ciclo contínuo, os sinais de alerta já eram visíveis. A 7 de dezembro, o número de óbitos superou em cerca de 25% o valor esperado, indiciando uma tendência que viria a consolidar-se nas semanas seguintes. Os dados, apurados pela Direção-Geral da Saúde (DGS) e pelo Sistema de Informação de Certificados de Óbito (SICO), exigem, ainda assim, uma leitura prudente.

“Estes números têm de ser analisados com calma e enquadrados em vários indicadores”, sublinha Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. Em declarações ao Expresso, o especialista aponta três fatores determinantes: o envelhecimento acelerado da população, as temperaturas significativamente mais baixas e a circulação sazonal de uma estirpe gripal sem histórico recente.

O impacto concentra-se sobretudo nos grupos mais vulneráveis. “A mortalidade é mais marcada em pessoas com mais de 75 anos e com doenças crónicas”, explica Bernardo Gomes, referindo ainda fatores sociais que agravam o risco, como a pobreza energética, o fraco isolamento térmico das habitações e condições socioeconómicas desfavoráveis.

A experiência epidemiológica indica que estes ciclos tendem a seguir um padrão de compensação. “Após períodos prolongados de mortalidade excessiva, é expectável um abrandamento, com valores normais ou abaixo do esperado”, observa o responsável, numa lógica de esgotamento do grupo mais suscetível a complicações.

No balanço anual, 2025 fechou com 121.974 mortes, acima das 116.946 registadas em 2024. Os meses de inverno concentraram os picos — dezembro com 12.784 óbitos e janeiro com 12.290 — em contraste com valores mais contidos no verão e início do outono, confirmando a forte sazonalidade e a intensidade invulgar deste inverno.

Portugal em destaque na Europa

A comparação internacional reforça o alerta. De acordo com a rede EuroMOMO, na semana 50 de 2025 Portugal apresentou níveis de mortalidade muito acima do esperado, sendo apenas superado por Espanha. Em países como Itália ou França, os valores mantiveram-se próximos do normal ou mesmo abaixo.

Quanto à evolução nas próximas semanas, as autoridades evitam previsões precipitadas. “É cedo para antecipar o que vai acontecer”, admite Bernardo Gomes ao Expresso, defendendo uma análise mais fina dos dados. A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, confirma que o país está “ainda no meio de uma epidemia de gripe”, num inverno mais severo e com uma variante mais agressiva em circulação. O pico poderá estar próximo — mas a confirmação só surgirá quando os números começarem, efetivamente, a descer.

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