O putsch da cervejaria

A eleições presidenciais são uma lição da mudança política em curso.

No final de Abril de 2002, tivemos um convidado especial na tertúlia que mantínhamos numa daquelas cervejarias que caracterizavam a Lisboa que hoje desaparece. Era uma figura da direita, mas que começava a ganhar alguma visibilidade pública.

No entanto, o tema desse almoço foi uma notícia que tomara todos de surpresa – a passagem de Jean-Marie Le Pen à segunda volta das presidenciais francesas. Perante o entusiasmo de vários dos presentes e a acesa discussão que se seguiu, o convidado ia encolhendo-se no seu desconforto e refugiando-se num silêncio incompatível com a ocasião.

Mesmo assim, a ingenuidade de todos foi espantosa, porque o convidado de parcas palavras conseguiu despedir-se como se nada de mais se tivesse passado e o grupo convenceu-se que ele regressaria na semana seguinte para falar de livros e leituras, o nosso tema habitual. O que se passou foi exactamente o oposto, porque o sujeito transpirou todo o seu fel a quem o tinha convidado. «Como era possível?», indignou-se. Ao que o nosso amigo comum lhe disse que era uma tertúlia às direitas. «Impossível!», insistiu o jovem intelectual, para quem os que celebravam a vitória de Le Pen nada mais eram que uns «nazis». Perante tão estafado argumento, o nosso amigo ainda ironizou, dizendo que ele tinha ido no dia do «putsch da cervejaria». Mas, como acontece a todos os que sofrem da cegueira antifascista, o seu sentido de humor desaparecera.

Sem surpresa, na segunda volta das recentes presidenciais portuguesas o nome dele figurava entre os apoiantes de António José Seguro, numa daquelas listas da direita preocupada com «o futuro da democracia».
Quando a esquerda francesa se mobilizou para votar em Chirac na segunda volta, contra o «regresso do fascismo» encarnado em Le Pen, foi pelo menos honesta no seu slogan provocador. «Votez escroc, pas facho» (Vota vigarista, não fascista) era uma versão directa do «Se for preciso tapem a cara [de Soares] com uma mão e votem com a outra», de Álvaro Cunhal na segunda volta das presidenciais portuguesas de 1986, em que o «fascista» era Freitas do Amaral…

Passados 40 anos, o candidato do PS é um poço de virtudes e o homem do consenso, mesmo para aquela direita que em tempos sofreu os habituais insultos da esquerda. A única virtude da candidatura de António José Seguro foi fazer cair em público as máscaras dos que fingiam opor-se a um sistema que corrói o nosso país há demasiados anos.

Aqueles que, com o novo Presidente eleito, celebram uma «vitória do Povo português», descurando o terço dos votos recolhidos por André Ventura num resultado histórico. São os mesmos que louvam a grande conquista de Seguro, mas que há uns meses garantiam que qualquer candidato venceria Ventura na segunda volta. Enfim, são aqueles para quem a democracia é o melhor dos regimes, excepto quando «o povo vota mal».

Rodeado de repórteres, depois de anunciado o esperado resultado, Seguro proclamou: «O povo português é o melhor do mundo!» Pensei que estava a assistir à coroação de Marcelo II… Mas, depois de ver os sorrisos de tantos socialistas no pano de fundo, percebi que afinal se tratava de Sampaio II. Entretanto, o titubeante Montenegro ainda está em cima do muro, qual Humpty Dumpty… Por quanto tempo?

Tenho saudades daqueles tempos em que tanto discutíamos e aprendíamos enquanto partilhávamos o exagerado cozido à portuguesa das quintas-feiras, mas gosto dos anos decisivos que estamos a viver e pelos quais tanto ansiámos. Agora, o vento mudou e, como dizia um dos ilustres membros da desaparecida tertúlia, sinto cada vez mais saudades do futuro…

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