“Na Bajouca, à falta do Estado”, responde a comunidade

Na Bajouca, longe de Leiria, pouco ou nada se sentiu a presença do Estado após a tempestade. Ali, foram a comunidade e uma equipa de voluntários a arregaçar as mangas, num trabalho de quatro semanas "por amor às pessoas".

© D.R.

No dia 27 de janeiro, a equipa de 17 voluntários da unidade local de proteção civil da Bajouca já estava de sobreaviso de que algo poderia acontecer na madrugada seguinte, mas não antevia aquilo que encontrou pela manhã.

A depressão Kristin deixou a Bajouca sem luz e sem comunicações, intransitável, numa freguesia do norte do concelho de Leiria onde os estragos, um mês depois, ainda são visíveis nas casas – algumas com lonas, outras com telhas remendadas — e em estruturas caídas e vergadas pela força do vento.

Assim que acordaram de manhã e viram a dimensão dos estragos, cada um dos elementos da unidade e populares de forma autónoma arregaçaram mangas, pegaram em motosserras e começaram a desimpedir caminhos tapados pelas árvores.

“Não tínhamos comunicações, então começámos a abrir o caminho para chegarmos uns aos outros. Fomos atalhando, cortando pinheiros, e acabámos por nos encontrar todos”, conta à Lusa Rui Pedrosa, serralheiro que estava de baixa na altura e que faz parte da unidade.

A partir das 06:00, os diferentes membros da unidade acabaram por confluir até ao café das piscinas da Bajouca, que pertence à junta de freguesia e que se transformou numa espécie de posto de comando.

“Logo aí, decidiu-se que a prioridade era desimpedir caminhos”, conta Rui Pedrosa.

A equipa e outros habitantes andaram a desobstruir vias, com a ajuda preciosa de empresas da terra, onde o setor florestal está muito presente.

“Às 10:30, já se circulava na Bajouca toda”, conta a coordenadora da unidade local, Cristina Bailão, vincando que o trabalho foi o de uma comunidade inteira que se prontificou a ajudar: “Eu digo que temos 17 elementos confirmados na unidade, mas nisto passámos quase a dois mil.”

Rui Pedrosa confirma: “Nós não precisávamos de estar a pedir, que as pessoas apareciam no caminho para ajudar.”

No espaço de horas, equipa e junta de freguesia definiram prioridades e deram respostas às necessidades, como garantir banhos quentes nas piscinas com um gerador que a autarquia foi comprar logo nesse primeiro dia, ter o centro social a funcionar e a conseguir passar por todos os lugares para ver os seus utentes, identificar casas muito afetadas e começar a pensar na logística.

Todos os dias, às 07:00, preparavam e distribuíam tarefas, em conjunto com o executivo da junta, no café das piscinas.

Munida de ‘walkie talkies’ de um elemento do clube de futebol local Alegre e Unido, a equipa ajudou a pôr lonas e telhas nas casas afetadas, organizou os voluntários que chegavam do resto do país, fez levantamentos de danos, ajudou com a instalação de geradores, distribuiu alimentos e bens de primeira necessidade, andou com os escuteiros de porta em porta a identificar problemas, e até apoiou as equipas de técnicos da E-Redes para garantir que nada lhes faltava.

Nesse trabalho, a equipa encontrou idosos com reformas de 300 euros e casas destruídas, necessidades materiais graves, pessoas desorientadas ou isoladas e sem apoio familiar, explica Cristina. “Também fizemos de assistentes sociais e de psicólogos”, acrescenta.

“Era sempre das sete da manhã até às tantas”, recorda a mulher, que tem uma empresa de jardinagem, mas que nestas semanas pouco tempo teve para dedicar ao seu negócio, tal como outros voluntários que chegaram a tirar dias de férias para estar no terreno a ajudar.

Passado quase um mês, ainda andava um dos elementos da unidade, um antigo presidente da junta, com os funcionários da E-Redes, para os ajudar a localizar pontos críticos e munido de motosserra para desbravar árvores que estivessem a dificultar o trabalho.

Agora, nos cafés matinais, já são cada vez menos aqueles que marcam presença, mas o trabalho ainda não cessou.

Além de Cristina e Rui, também andaram por lá Ilídio Estrada e Luís Soares, reformados que por estes dias ainda andavam a fazer remendos em telhados e diziam ser já especialistas em coberturas de habitações. Só a unidade teve intervenção em 180 casas da Bajouca.

“E continuamos em prontidão”, afirma Ilídio, que não resiste ao léxico militar, onde fez carreira.

“Houve sempre muita coisa para dar resposta”, recorda Rui Pedrosa, também ele ainda a dar uma ajuda – por estes dias, acompanha psicólogas da Câmara que andam pelas localidades afetadas.

Neste momento, o trabalho está mais orientado e, no último fim de semana, já deu para descansar. Mas engane-se quem possa pensar que vão desmobilizar.

“Não, ainda não. Vamos mantendo o contacto, nem que seja só dois elementos, e vamos ter de nos juntar para reformular protocolos para que no futuro possamos ter uma ação ainda mais assertiva e rápida, que eu sei que isto não vai ser a última tempestade que vamos apanhar e temos de estar preparados”, diz Cristina.

Ao fim de um mês, a coordenadora diz-se “muito orgulhosa” da equipa, onde não há super-heróis, mas “pessoas comuns”.

“Isto não tem a ver com a unidade local de proteção civil. Tem a ver com um grupo da população que tem um sentido de dever cívico acima de outros sentimentos. O pertencer à unidade local é uma das consequências disso”, salienta Ilídio Estrada.

Pela Bajouca, vincam, foram as pessoas comuns que valeram.

“Nós não tivemos nem bombeiros, nem polícia, nem exército, nem nada”, sublinha Cristina.

“Foi voluntariado puro e duro, daqui e de fora”, acrescenta Rui-

Para Cristina Bailão, que à noite ainda pensa nas telhas e nas pessoas que é preciso ajudar, a crítica é dirigida à falta da presença do Estado.

“Um Estado que depende da boa vontade das pessoas é um Estado fraco. Para mim, homens fracos fazem tempos difíceis e nós estamos a caminhar para tempos muitos difíceis”, alerta.

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