Sociedades científicas alertam para aumento de doentes que não cumprem medicação

Diversas sociedades científicas alertam para o aumento dos doentes que não cumprem a medicação e omitem a informação do médico, sobretudo os mais novos, porque julgam ter menor risco, pedindo maior aposta na literacia.

©D.R.

De acordo com um estudo realizado em parceria com a Sociedade Portuguesa de Hipertensão (SPH), Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA) e Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), entre outros, um em cada três doentes que falha a toma da medicação não diz ao médico por não achar relevante (57%).

“Eu achava que, muitas vezes, as pessoas não diziam com medo de que houvesse uma reprimenda, no fundo, naquele papel ainda antigo do médico que vigia. Mas não é só esse o facto”, disse à Lusa o presidente da SPA, Francisco Araújo, acrescentando: “São doenças que habitualmente não trazem sintomas (…) e são tão prevalentes que é quase como se fosse um quadro de normalidade”.

Alertou para a falsa normalidade, avisando que doenças como a aterosclerose ou a hipertensão “são fatores de risco para a doença cardiovascular” e que, como se trata de um processo de dura muitos anos, nas pessoas mais novas leva-as a pensar que têm um risco mais baixo do que na realidade têm.

De acordo com os dados do estudo “Adesão à Terapêutica na Doença Crónica – A Visão dos Doentes”, elaborado a propósito do Dia da Adesão, que se assinala no dia 27, a principal causa apontada para o não cumprimento da medicação é a ausência de sintomas (33,2%), seguida da “gravidade percecionada” da doença (17,2%) e da posologia (15,8%).

Quase metade dos doentes inquiridos (46,4%) não têm os conhecimentos nem as competências necessárias para compreender e aplicar no seu dia a dia a informação de que precisam para gerir a sua doença. Além disso, mais de um em cada cinco inquiridos considera que as notícias e a comunicação sobre saúde nos meios de comunicação social são difíceis ou muito difíceis de compreender.

O presidente da SPA sublinhou a importância da alfabetização e da literacia, exemplificando: “É como um banco, com vários pés — o papel do médico, da medicação e também o do doente. Quando um deles falha vai tudo ao chão”.

Disse que a etapa onde se obtém mais ganhos em saúde no que se refere à alfabetização é nas crianças e destacou a importância da literacia para “moldar o comportamento dos jovens” quanto aos fatores de risco das doenças crónicas, reconhecendo que é como “uma corrida de fundo”.

“Nós não estamos a tratar a hipertensão ou a dislipidemia muitas vezes para reduzir o risco no imediato.(..) Estamos a pensar para quando a pessoa chegar aos 60 ou 70 anos, que é a idade em que os pais muitas vezes também já tiveram complicações”, afirmou.

A hipertensão e a aterosclerose são as doenças cardiovasculares mais prevalentes, segundo o estudo, que mostra igualmente que uma elevada percentagem destes doentes está medicada: 91,2% (hipertensão) e 73,1% (aterosclerose). Contudo, entre os que não cumprem com a medicação, cerca de sete em cada 10 afirmam não ter qualquer receio de que a sua doença se descontrole ou agrave.

“Por se tratarem de doenças silenciosas, muitos doentes acabam por subestimar um risco que se vai acumulando ao longo do tempo”, referem os autores do estudo, que ouviu 600 doentes de diversas regiões do país, dos 35 aos 75 anos ou mais, 25,5% dos quais com duas doenças crónicas e mais de 12% com três ou mais.

A adesão à terapêutica é amplamente valorizada pelos doentes (59,7% estão altamente conscientes), mas essa valorização nem sempre se traduz no dia-a-dia, já que cerca de 40% não toma a medicação tal como indicado pelo médico.

Relativamente aos dados do estudo realizado nos mesmos moldes no ano anterior, aumentou a percentagem de doentes que não fazem medicação por se “sentirem bem” (32,9% face a 21,9%), assim como a percentagem de doentes sem acompanhamento médico regular (20,5% face a 14,1%).

Em Portugal, o Dia Mundial da Adesão e as atividades ligadas a esta efeméride contam também com o apoio da Associação Nacional das Farmácias, Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, Portugal AVC, Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral, Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, Sociedade Portuguesa de Medicina Interna e Servier Portugal.

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