“A Europa à Mesa do Banquete da Guerra… como Pagadora de Serviço”

A Europa, essa velha senhora de modos refinados e carteira sempre à beira de um suspiro, acorda novamente sobressaltada com o ruído distante, mas economicamente ensurdecedor, de mais um conflito no Médio Oriente e, como diria Winston Churchill, “os impérios do futuro são os impérios da mente” e, ao que parece, também do barril de petróleo.

Entre ataques, retaliações e declarações inflamadas, a realidade é simples, basta um míssil mal colocado para que o preço do combustível em Lisboa suba mais depressa do que a indignação no Parlamento Europeu e, assim, entre comunicados solenes e reuniões de emergência, a Europa descobre, mais uma vez , que a sua autonomia energética é tão robusta quanto um guarda-chuva em dia de furacão.

O conflito, que rapidamente extravasou as fronteiras regionais, trouxe consigo um efeito dominó digno de um romance de Eça de Queirós, drama, ironia e um inevitável desfecho previsível, paga, como sempre, pelo consumidor, com um aumento abrupto do Brent, os combustíveis a subir mais de 30% e o gás a duplicar na Europa são apresentados como fatalidades inevitáveis, quase fenómenos naturais, como se fossem tempestades e não decisões humanas.

Mas o cidadão comum, esse eterno figurante na peça geopolítica, coloca a questão incómoda: se o petróleo consumido hoje foi comprado há meses, porque sobe o preço hoje? A resposta, envolta em tecnicismos e discursos vagos, poderia ser resumida numa frase adaptada de Ronald Reagan: “o problema não é a falta de explicações, é o excesso de desculpas”.
Na verdade, o mercado reage não ao presente, mas ao medo do futuro e o medo, como bem sabemos, é o activo mais lucrativo das últimas décadas, em que os contratos futuros, os fundos especulativos e os algoritmos financeiros transformam a antecipação em lucro imediato e, assim, o que ainda não aconteceu já pesa no bolso de quem abastece o carro.

Quanto ao Estreito de Ormuz, essa artéria vital por onde passa uma fatia significativa do petróleo mundial, a narrativa oficial sugere um cenário de bloqueio quase apocalíptico, mas, contudo, a realidade é mais subtil e, por isso mesmo, mais inquietante, porque não são apenas navios que deixam de passar, são seguros que deixam de existir.

Mais de 90% do comércio marítimo depende de um pequeno grupo de seguradoras internacionais, muitas delas sediadas em Londres, onde quando o risco sobe, os seguros desaparecem e sem seguro não há navio que ouse navegar e, como diria Margaret Thatcher, “não existe dinheiro público, existe o dinheiro dos contribuintes” e, poderíamos acrescentar, não existe comércio global sem a bênção silenciosa das seguradoras.

O efeito cascata é inevitável, o Irão sufoca economicamente, a China vê ameaçada a sua segurança energética (com cerca de 40% das suas importações a depender daquela rota), a Índia treme com a sua dependência de 85% de petróleo importado e, a Rússia, observa com uma paciência estratégica quase literária, o aumento do valor do seu próprio petróleo.

No meio deste xadrez global, a Europa mantém-se fiel ao seu papel habitual, reage tarde, paga cedo e explica-se mal, pois como afirmou Ursula von der Leyen, “a Europa deve assumir o seu destino nas próprias mãos”, mas, o problema é que, frequentemente, essas mãos estão ocupadas a assinar contratos de emergência.

A grande ironia deste enredo geopolítico, digno de uma crónica de Mário Zambujal, é que, no fim, não são os generais nem os líderes que verdadeiramente determinam o rumo da economia global, são os mercados, os sistemas financeiros, as bolsas e, sobretudo, os discretos senhores do seguro marítimo, que nunca aparecem nas manchetes, mas que decidem quem navega e quem fica em terra.

Talvez a verdadeira lição seja esta, o poder no século XXI não se mede apenas em armas ou território, mas na capacidade de influenciar fluxos, de energia, de capital e de confiança e, enquanto a Europa continuar dependente dessas correntes invisíveis, continuará a ser mais passageira do que condutora.

No final, resta-nos o consolo agridoce da lucidez, percebemos o jogo, mas continuamos a pagar o bilhete e, como bons Europeus, ainda agradecemos a viagem.

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