O imposto invisível que ninguém discute: a lentidão do Estado

Há um “imposto” em Portugal que não aparece nas tabelas do IRS, não vem no IVA e não é debatido com a seriedade que merece: o imposto da lentidão.

Falo do tempo perdido em licenciamentos, autorizações, respostas administrativas, processos que se arrastam meses às vezes anos até que uma decisão simples seja tomada. Este custo não entra nas estatísticas oficiais, mas entra na vida real das pessoas: nos projetos que não avançam, nos investimentos que não se concretizam, nas famílias que desistem e nas empresas que escolhem outros países.
O problema já não é apenas burocracia. É uma cultura instalada de desresponsabilização pelo tempo do cidadão.

Em Portugal, normalizou-se a ideia de que esperar é parte do processo. Mas ninguém pergunta quanto custa essa espera. E esse é precisamente o ponto central: o tempo também é dinheiro e quando o Estado o desperdiça, está a tributar silenciosamente a economia e a confiança.

Dou um exemplo simples: um jovem casal que quer construir casa. Entre projetos, pareceres, câmaras municipais, entidades externas e alterações sucessivas, o processo pode arrastar-se tanto tempo que o custo final deixa de ser apenas financeiro torna-se emocional e, muitas vezes, desistência pura.

O mesmo acontece com empresas que querem investir. O capital não espera. E quando encontra portas fechadas pela demora, simplesmente vai embora.

O mais preocupante é que este problema raramente é tratado como prioridade política. Discute-se muito a criação de apoios, incentivos e programas, mas pouco se fala daquilo que impede tudo o resto de funcionar: a máquina do Estado.
A verdadeira reforma administrativa não está em adicionar mais plataformas digitais ou mais formulários online. Está em reduzir etapas, eliminar redundâncias e responsabilizar prazos.

Um processo administrativo sem prazo efetivo é, na prática, um processo sem fim e um Estado sem fim previsível não é um Estado eficiente, é um Estado imprevisível.
Portugal precisa de começar a encarar a eficiência não como um detalhe técnico, mas como uma questão de justiça. Porque não há nada mais injusto do que um sistema que trata o tempo dos cidadãos como se não tivesse valor.

Enquanto isto não for assumido como um problema central, continuaremos a discutir crescimento económico sem tocar no maior travão de todos: o tempo que o próprio Estado consome.

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