A ilusão perfeita antes do destino final

Havia, numa quinta afastada do mundo, um porco que vivia como se tudo tivesse sido feito para ele. Não por mérito, mas por uma ordem qualquer, meio invisível, meio absurda, que ninguém se deu ao trabalho de explicar. O frio não o afectava. O estábulo envolvia-o num calor manso, quase sonolento, como se o tempo tivesse outra espessura. A fome também não o visitava, porque a comida surgia sempre, pontual, como se alguém temesse deixá-lo sozinho com os seus próprios pensamentos. E a solidão, essa nem sabia o que era, porque a mão que o alimentava aparecia todos os dias, tão certa como uma divindade doméstica.
Com o tempo, o porco acreditou.
Acreditou demais, talvez.
Acreditou que aquela rotina era a lei secreta do universo, que a mão que o alimentava era boa por natureza, que viver era receber e que nada mais lhe era pedido.
E é curioso como ninguém lhe disse o contrário.
Mas o universo tem destas ironias antigas, quase cruéis. O conforto, por vezes, é apenas a forma mais suave do destino. O porco engordava e ao engordar, entrava num plano que nunca lhe explicaram. E talvez fosse melhor assim, porque se lho dissessem ele fugia. Ou ficava parado, incapaz de escolher.
O agricultor observava-o com a serenidade de quem sabe que a gratidão do animal não altera o fim. E o dia em que o porco estava mais pesado, mais tranquilo, mais convencido de que vivia num paraíso, foi o dia em que a lâmina brilhou.
Há sempre este instante estranho em que o auge do conforto coincide com o início do fim.
A ideologia socialista opera com esta mesma lógica. Não se apresenta como força, mas como abrigo.
Não dizem “obedece”, murmuram “descansa, nós tratamos de ti”.
Não exigem esforço, oferecem amparo e subsídios. Uma mão sempre estendida, sempre pronta, sempre ali, como se a dependência fosse uma virtude. E o indivíduo, cansado, cede. Aceita a protecção total, até que a dependência deixa de ser circunstância e se torna estrutura interior.
É aqui que a parábola ganha outra espessura, quase metafísica, quase desconfortável.
O sujeito deixa de ser autor da própria vida e passa a ser alguém mantido por conveniência. Um ser dependente é previsível. E o previsível é fácil de conduzir. O conforto torna-se uma jaula, a segurança torna-se um hábito, o hábito torna-se o destino. E o indivíduo engorda por dentro, não de alimento, mas de passividade. E quando percebe que a mão que o alimenta também o limita, já desaprendeu de caminhar, de procurar, de desejar. Já não saberia o que fazer com a própria liberdade e identidade, se as encontrasse. Talvez até as recusasse, por hábito, que às vezes é mais forte do que o medo.
Algumas advertências não chegam como palavras. Chegam como um peso no silêncio, como um desconforto que se instala devagar, como uma sombra antiga que se mexe no fundo da consciência. E que às vezes se cala, porque ninguém a quer ouvir. E essa advertência, sem rosto nem voz, diz apenas:
“Quando alguém te alimenta sem pedir nada, não olhes para o prato. Olha para o vazio que querem abrir dentro de ti.”
O perigo não está na comida. Está no que deixas de procurar quando te habituas a recebê-la. Está na parte que se acomoda, que se rende, que se esquece de sair da mesa.
Há sempre um preço escondido na mão socialista que dá sem exigir.

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