As lições de Lincoln

A 4 de Julho último os Estados Unidos da América celebraram, uma vez mais, o seu dia nacional, o feriado mais importante do seu calendário. Que, porém, se revestiu de uma importância ainda maior do que é habitual porque este ano festejou-se o 250º aniversário da Declaração da Independência, e, logo, da fundação dos EUA como nação. Assim, do Atlântico ao Pacífico, do Alaska ao Hawaii, (quase todos) os norte-americanos festejaram a sua pátria, tendo a Casa Branca e o Presidente Donald Trump assumido o papel e o protagonismo principais, algo aliás perfeitamente previsível e inevitável. A vitória de DJT na votação realizada a 5 de Novembro de 2024, e, logo, a sua consequente reeleição para um segundo mandato (não consecutivo) teve como grande benefício, como principal vantagem, parar e reverter a rota de (auto-)destruição deliberada, acelerada e generalizada que o Partido Democrático prosseguiu nos quatro anos anteriores. Teria sido, e seria sempre, uma contradição, um completo contra-senso, que uma organização política que sempre preconizou – com maior ou menor intensidade e de diferentes formas – o término dos EUA como o conhecemos, ou, o que vai dar praticamente ao mesmo, a sua (Barack Obama foi quem primeiro a referiu) «transformação fundamental» tivesse a seu cargo a honra e a responsabilidade de dirigir os festejos da criação do país; e, felizmente, tal não aconteceu.
Há que reconhecer, efectivamente, que nem todos os norte-americanos sentem alegria e orgulho em serem… norte-americanos. Refiro-me, obviamente, aos de esquerda, aos democratas, que, em especial desde 1976, aquando do bicentenário, sentem-se cada vez menos patrióticos, e há sondagens que o indicam. Essa atitude, esse «estado de espírito», agravou-se compreensivelmente desde 2016, quando DJT conquistou pela primeira vez a presidência, e, uma década depois, foram muitos os «burros», na política, nos media e no entretenimento, que se esforçaram para expelir os mais ofensivos e/ou os mais ridículos disparates a despeito das (sem dúvida saudáveis) exaltações nacionalistas. A repulsa, a rejeição da «stars and stripes» e dos seus significados representa, mais do que um «padrão», uma «tradição» dos democratas que vem da Guerra Civil, durante a qual eles optaram pela bandeira confederada; posteriormente, e além de queimarem regularmente o símbolo nacional, foi frequente marcharem com outros estandartes dificilmente consensuais como o arco-íris e o «palestiniano». Agora, compare-se, e contraste-se, as «birras» injustificadas destes esquerdistas «cidadãos», que não valorizam o que de positivo têm, com as reacções de surpresa, agrado e deslumbramento por parte de muitos estrangeiros de visita aos EUA, europeus e não só, para assistirem aos jogos do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026. Estrangeiros esses que se aperceberam, enfim, de que quase todos os órgãos de comunicação social dos seus países, e também a maior parte dos dirigentes políticos, lhes mentiram ao longo de anos e de décadas sobre a realidade da vida nos «States».
No dia anterior, 3 de Julho, e do outro lado do oceano, em Lisboa, comemorou-se igualmente, de véspera e de certo modo, o 250º aniversário dos EUA. Foi quando e onde decorreu a primeira apresentação de «Discursos» de Abraham Lincoln, que seleccionei e traduzi, e que constitui o primeiro livro impresso em Português com textos escritos pelo 16º Presidente da grande nação. Ao meu lado na mesa da sala de Âmbito Cultural do El Corte Inglés, honrando-me com a sua presença e a sua alocução, esteve Miguel Morgado, que, além de ser conhecido como político (foi assessor de Pedro Passos Coelho quando este era primeiro-ministro, e depois deputado) e comentador televisivo (na SIC Notícias), é também um dos mais prestigiados politólogos portugueses, sendo doutorado em Ciência Política e docente na Universidade Católica Portuguesa. O posfácio de enorme qualidade que escreveu para a obra realça, tal como a minha introdução, a importância transcendente do autor traduzido. As causas de Lincoln eram claras: a preservação da União, isto é, a manutenção dos Estados Unidos sem divisões nem secessões, e o seu desenvolvimento; o respeito pela Constituição e pelas outras leis; a abolição da escravatura, no país e no Mundo. Quem ler os seis discursos por ele proferidos antes de ser eleito Presidente não ficará com quaisquer dúvidas quanto à sua inteligência e à sua integridade; aliás, bem cedo começou a ser conhecido como «honesto Abe». É na verdade impressionante o seu conhecimento da legislação daquela época, nacional, estadual e local, mas também da história do seu país, tanto a recente como a mais distante. Sabia quem tinha votado em quê, quando e porquê. Sabia os números. Estava a par tanto dos grandes acontecimentos como dos pequenos incidentes, estes quantas vezes só aparentemente insignificantes. Era capaz de denunciar e de desmontar continuamente os argumentos falaciosos dos seus adversários com factos incontornáveis. Enfim, era um opositor do Partido Democrático, esclavagista e tendencialmente autoritário, e foi um dos fundadores do abolicionista e crescentemente gregário Partido Republicano.
Estas foram, e são, as lições de Abraham Lincoln, nas suas palavras, nas suas decisões, nas suas acções, expressas em exemplos de coragem, não só para o seu tempo e a sua terra mas também para todos os tempos e todas as terras. O homem morreu, mas, em simultâneo, nasceu o mártir, o mito. Abraham Lincoln é o ícone, a referência principal em relação à qual todos os seus sucessores são medidos e comparados, uma espécie de «padrão ouro». «Disputa» em permanência com George Washington o «título» de maior, melhor, mais importante presidente; se aquele criou o país, Lincoln impediu a sua destruição. Antes e depois dele outros comandantes-em-chefe existiram que não deixaram a sua marca, que foram sendo esquecidos, e são hoje praticamente desconhecidos da população norte-americana. Não ele: a sua figura, a sua fisionomia, a sua «alma» nunca deixaram de estar presentes, «pairando» perpetuamente na consciência, na memória e no imaginário colectivos dos EUA.

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