ECLIPSE TOTAL

Há imagens que têm o condão de transformar um problema nacional numa história bonita. Um bebé nasce dentro de uma ambulância. Os bombeiros sorriem. A mãe aparece emocionada. O recém-nascido é fotografado. As redes sociais enchem-se de mensagens de parabéns. E, durante alguns minutos, Portugal suspira de alívio. Nasceu mais um bebé. Que maravilha.

Só há um pequeno detalhe que parece escapar à fotografia: aquele bebé não devia estar a nascer numa ambulância.

E é aqui que começa o nosso eclipse. Porque em Portugal conseguimos olhar para uma situação que devia provocar preocupação e transformá-la numa história ternurenta. Conseguimos celebrar a exceção e esquecer a regra. Um bebé nascer é sempre uma boa notícia. Um bebé nascer numa ambulância porque não conseguiu chegar atempadamente a uma maternidade não devia ser apresentado apenas como a história emocionante do dia. Devia ser, acima de tudo, uma pergunta: como é que chegámos aqui?

É claro que os bombeiros merecem todos os elogios. São eles que, muitas vezes, aparecem quando o sistema já não consegue responder a tempo. Fazem aquilo que sabem, aquilo que aprenderam e, muitas vezes, aquilo que nunca imaginaram ter de fazer. Fazem-no com coragem, profissionalismo e humanidade. Mas não devemos confundir a competência dos bombeiros com o funcionamento perfeito do sistema. Se um bebé nasce numa ambulância, podemos e devemos aplaudir quem fez o parto. Mas também devemos perguntar por que razão aquele bebé não nasceu em uma maternidade?. Essa pergunta fica frequentemente fora da notícia, dada na comunicação social.

Portugal tem um problema sério de natalidade. Sabemo-lo há anos. Temos menos crianças, uma população cada vez mais envelhecida e gerações mais pequenas a substituir gerações maiores. Os governantes fazem discursos sobre a importância da família e todos parecem concordar que é preciso incentivar os portugueses a terem filhos. Então, onde estão os programas, benefícios e medidas eficazes para a resolução do problema?. Não será certamente com o encerramento recorrente de urgências obstétricas e pediátricas, com o encerramento ou concentração de maternidades e com mulheres grávidas obrigadas a percorrer dezenas ou até centenas de quilómetros para dar à luz, que iremos incentivar os jovens adultos a inverter a situação.

É aqui que a conversa sobre natalidade deixa de ser uma fotografia bonita de um bebé e passa a ser uma questão política. Porque ter filhos não se decreta e muito menos se consegue apenas dizendo aos portugueses que “é preciso ter mais filhos”. As pessoas sabem que o país precisa de crianças. O que muitas famílias não sabem é como conseguem tê-las.
Porque há que fazer contas: quanto custa a renda? Quanto custa uma creche? Quanto custa ir ao supermercado? Quanto custa uma prestação da casa? Quanto custa reduzir o horário de trabalho para acompanhar um filho? Quanto custa ter um segundo filho? E depois fazem a pergunta que nenhum anúncio consegue responder: “Será que conseguimos?”

E talvez seja esse o grande eclipse da política de natalidade portuguesa.

Não precisamos de ser o país europeu com mais fotografias de bebés nascidos em ambulâncias. Precisamos de ser um país onde uma mulher grávida tenha confiança de que, quando chegar o momento, existe uma maternidade acessível, equipada e com profissionais suficientes para a receber. Precisamos de um país onde ter um filho não seja uma aventura financeira e onde uma mãe não tenha de fazer malabarismo para conciliar trabalho e maternidade.

Portugal não precisa de mais eclipses. Precisa de mais luz.

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