Será um dos anos eleitoralmente mais importantes desta década europeia. A França escolherá um novo Presidente da República. Itália, Espanha e Polónia estarão em ciclos eleitorais nacionais decisivos. Na Alemanha, vários Länder irão a votos. Em Inglaterra, haverá importantes eleições locais.
Não se trata apenas de uma coincidência de calendários. Penso tratar-se do início de uma nova vaga política europeia.
O ciclo político e cultural iniciado simbolicamente em maio de 1968 está a chegar ao fim. Durante décadas, a contestação da autoridade, da Nação, da família, das fronteiras e da tradição passou das ruas para as universidades, dos meios culturais para as instituições. O wokismo é o seu último reduto: a expressão terminal de uma cultura que desconfia de si mesma e se destrói.
Entretanto, o mundo não parou.
Quarenta anos de diplomacia ensinaram-me uma regra simples: no sistema internacional, não conta aquilo que proclamamos. Conta o poder que conseguimos exercer. E a Europa perdeu poder.
Perdeu indústria, autonomia energética, capacidade militar, competitividade tecnológica e peso demográfico. Enquanto outras grandes potências investiram em energia, tecnologia, defesa, produção e cadeias estratégicas, a Europa especializou-se em regulação.
O Green Deal foi fatal. Impusemos à nossa própria indústria custos que os principais concorrentes não suportam, fechámos capacidade produtiva e passámos depois a importar de países terceiros aquilo que deixámos de produzir.
Não foi autonomia estratégica. Foi suicídio económico e estratégico.
Na energia criámos dependências perigosas, com uma ingenuidade inexplicável. Na defesa reduzimos exércitos, reservas e indústria militar. Nas fronteiras permitimos que uma função elementar da soberania – decidir quem entra – se tornasse objeto de discussão ideológica.
É este o cenário de escombros. Mas os escombros não são o futuro.
A verdadeira esperança de 2027 é que dele pode emergir uma Europa diferente: uma Europa novamente preparada para um mundo de competição entre grandes potências. Esse mundo já está diante de nós.
Os Estados Unidos continuarão a ser o grande aliado estratégico da Europa, mas a competição com a China e o Indo-Pacífico ocupam um lugar cada vez mais central nas suas prioridades. A Índia afirma-se como grande potência. África ganha peso demográfico, económico e estratégico. OAtlântico permanece decisivo para a segurança, a energia, o comércio e as comunicações entre continentes. E o Mediterrâneo é uma fronteira essencial.
Ao mesmo tempo, inteligência artificial, semicondutores, espaço, robótica, energia, matérias-primas e cadeias logísticas deixaram de ser simples questões económicas. São instrumentos de poder.
É neste mundo, e não no mundo de ontem, que a Europa tem de encontrar o seu lugar.
O primeiro eixo dessa recuperação é a energia e a indústria.
Não existe potência com energia estruturalmente cara, nem autonomia estratégica sem capacidade de produzir. A Europa precisa de energia abundante, segura e competitiva e precisa de voltar a fabricar aquilo de que depende: aço, medicamentos, máquinas, componentes, equipamentos de defesa e tecnologias críticas.
Nuclear, hídrica, renováveis, gás e novas tecnologias devem ser avaliados pelo seu contributo para a soberania estratégica, para o preço da energia e para a competitividade, não por ortodoxias ideológicas.
A inteligência artificial torna esta questão ainda mais urgente. A nova economia será intensiva em energia. Não podemos querer participar na revolução tecnológica e simultaneamente organizar a nossa política energética em torno da escassez.
O segundo eixo é a defesa.
A guerra não desapareceu da História, pelo contrário. Voltaram a guerra convencional, o terrorismo, as ameaças híbridas, os ataques cibernéticos e a sabotagem de infraestruturas críticas.
Os Estados europeus terão de reconstruir forças armadas, reservas, indústria militar, defesa aérea, capacidades navais, inteligência, drones e ciberdefesa.
Não contra a NATO, mas dentro dela. Uma Europa de Nações fortes, capazes de assegurar uma parcela muito maior da sua própria defesa, será um aliado mais credível dos Estados Unidos. Aliados respeitam aliados capazes.
O terceiro eixo é a tecnologia e a inovação.
A Europa não pode continuar a regular aquilo que outros inventam, financiam e dominam. Temos cientistas, engenheiros, universidades, empresários e capital. Falta-nos transformar esse potencial em poder económico e tecnológico.
Uma empresa criada em Lisboa, Milão, Varsóvia ou Paris deve poder tornar-se uma empresa mundial sem ter de abandonar a Europa para crescer.
A Europa que ajudou a inventar o mundo moderno não pode aceitar transformar-se no museu desse mundo.
O quarto eixo é a demografia e as fronteiras.
Uma civilização que deixa de ter filhos perde futuro. Uma civilização que não controla as suas fronteiras perde soberania.
A imigração legal pode ser necessária, mas deve caber aos Estados decidir quem entra, quantos entram e em que condições. E a imigração não pode ser utilizada como substituto de uma política de natalidade.
Habitação, fiscalidade, salários e apoio às famílias são também questões de poder nacional. Uma sociedade onde os jovens deixam de acreditar que podem constituir família está a consumir o seu próprio futuro.
O quinto eixo é uma Europa de Nações.
Integração não pode continuar a significar centralização. A Europa será forte se as suas Nações forem fortes.
O Conselho Europeu e o Conselho devem recuperar centralidade nas grandes decisões estratégicas. A Comissão deve regressar à função de guardiã dos Tratados e executora das decisões legitimamente tomadas. E o Parlamento Europeu, único órgão diretamente eleito pelos cidadãos, deve ganhar verdadeiro poder legislativo.
É aqui que 2027 pode tornar-se um ano de viragem.
Confirmando-se a consolidação, à direita, de uma nova correlação de forças nos principais países europeus, as consequências não ficarão dentro das fronteiras nacionais. Chegarão aos governos, ao Conselho Europeu e, em 2029, ao Parlamento Europeu.
A nova Europa não nascerá de um tratado. Nascerá das urnas.
E Portugal tem um lugar próprio nessa Europa. Somos europeus, atlânticos e lusófonos. Temos uma dimensão marítima extraordinária, portos atlânticos, os Açores numa posição geoestratégica única e ligações históricas e humanas a África e ao Brasil.
Num mundo em que o Atlântico, a energia, os cabos submarinos, os portos, as rotas marítimas e as ligações entre continentes voltam a adquirir valor estratégico, Portugal não pode continuar a pensar-se e a ser visto como periferia.
Somos uma abertura da Europa para o mundo.
Mas a geografia só se transforma em poder quando existe ambição para a utilizar. É esse o desafio que 2027 coloca a Portugal e à Europa.
Uma Europa que saiba reinventar-se como potência de Nações livres. Que volte a inovar e a surpreender, que disponha da energia de que necessita, que defenda as suas fronteiras, que assegure a sua segurança, que apoie as suas famílias e que fale de pleno direito com as grandes potências do mundo.
A decadência não é um destino e 2027 promete ser o ano da viragem.