Elevador da Glória: Vítimas sentem-se “esquecidas” pela Câmara de Lisboa

Vítimas e famílias afetadas pelo descarrilamento do elevador da Glória revelaram, numa carta aberta, que se sentiram "esquecidas" pela Câmara de Lisboa ao longo deste ano, referindo que "o único contacto direto" foi para a inauguração hoje do memorial.

© LUSA/MIGUEL A. LOPES

“Um ano depois, continuamos à espera de respostas, apoio e responsabilização”, lê-se numa carta aberta de vítimas e famílias afetadas pelo acidente com o elevador da Glória, escrita em inglês e endereçada à comunicação social, e a que a agência Lusa teve hoje acesso.

Assinalando um ano desde o descarrilamento do elevador da Glória, que ocorreu a 03 de setembro de 2025 e provocou 16 mortos e 24 feridos, sobretudo turistas estrangeiros, familiares das vítimas mortais e sobreviventes do acidente reforçaram que há “uma dor que ainda não desapareceu”.

“Um ano depois, nós, as vítimas e as famílias afetadas, sentimos que precisamos de falar. Sabemos que a investigação ainda está em curso e que respostas verdadeiras levam tempo. Não estamos a pedir a ninguém que se apresse ou que tire conclusões antes de os factos serem conhecidos. O que estamos a pedir é muito mais simples: comunicação, transparência, apoio, responsabilização”, lê-se na carta aberta.

Para a maioria das vítimas e famílias afetadas, este primeiro ano desde o acidente não foi apenas dedicado ao luto: “Foi também sobre não saber, esperar por informações que nunca chegam e sentir que ninguém está realmente a falar connosco.”

“Isto tem sido especialmente difícil para as famílias que vivem fora de Portugal. Durante um ano inteiro, muitas de nós receberam apenas uma comunicação direta por parte da Câmara Municipal de Lisboa: um convite para a inauguração do memorial. Compreendemos a importância do memorial e estamos gratos por as vítimas estarem a ser lembradas. Mas, quando esse convite é essencialmente o único contacto direto que tivemos da cidade em 12 meses, é difícil não sentir que fomos esquecidos”, expressaram.

De acordo com as vítimas e famílias afetadas, esse convite também mencionava que não estariam presentes jornalistas, por respeito à privacidade dos familiares.

“Compreendemos a intenção. Mas, para muitos de nós, pareceu que algo estava errado. Depois de um ano de silêncio, o que precisávamos não era de ser protegidos da conversa pública, precisávamos finalmente de fazer parte dela”, sublinharam.

Por isso, neste primeiro ano desde a tragédia do elevador da Glória, as vítimas e famílias afetadas realçaram a importância de serem ouvidas.

“Acreditamos que é importante que as pessoas ouçam diretamente aqueles que continuam a viver com as consequências do que aconteceu”, reforçaram.

Questionado pelos jornalistas sobre esta carta aberta, no final da cerimónia de inauguração do memorial às vítimas, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa (CML, Carlos Moedas (PSD), foi parco em explicações: “Não me levem a mal, eu percebo as perguntas […] as respostas têm sido dadas. A Câmara esteve sempre presente, está presente e estará sempre presente.”

“É um dia para homenagear e mostrar a nossa solidariedade e é também um dia de gratidão. Homenagear aqueles que partiram, que já não estão entre nós, é esse o nosso dever, da nossa memória”, disse Carlos Moedas.

O memorial de homenagem às vítimas localiza-se no Largo da Oliveirinha, junto à Calçada da Glória, onde ocorreu o acidente, e é composto por uma oliveira com 150 anos rodeada por 16 blocos em calcário com os nomes das vítimas.

Passado um ano, dos 40 processos de indemnização a familiares das vítimas mortais e a sobreviventes do acidente, apenas se encontram concluídos quatro, segundo informação da seguradora da empresa municipal Carris, a Fidelidade.

As investigações do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) e do Ministério Público às causas e responsabilidades do acidente ainda estão em curso, prevendo-se conclusões “até ao final do primeiro trimestre de 2027”.

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