“O Sol, a Lua e o Guardador de Vacas”

Virá o dia em que os historiadores do futuro olharão para o Verão de 2026 com o mesmo espanto com que hoje olhamos para a Idade Média. Imagine o leitor a cena: o céu Ibérico prepara-se para o maior espectáculo cósmico do século — um eclipse solar total capaz de arrastar multidões enfurecidas por um vislumbre da escuridão diurna. O que faz o Estado espanhol, esse monumento à burocracia ocidental? Entra em pânico profiláctico.

Com uma agilidade que nunca se viu para resolver a sustentabilidade da segurança social, o Ministério do Interior de Madrid saca do canudinho e mobiliza nada menos do que 33.600 polícias. Trinta e três mil operacionais nas estradas, nos portos e nos montes, de binóculos em riste e óculos de cartão certificados, tudo para garantir que o cidadão europeu possa olhar para a Lua a tapar o Sol sem sofrer um desgosto rodoviário ou atear um fogo florestal. É a apoteose da segurança pública sobre o nada. É o Estado-babá no seu zénite, a policiar a órbita celeste.

Mas a Lua, essa malandra, não brilha por si mesma; ela reflecte. E o que ela reflectiu nos dias anteriores ao eclipse foi uma luz crua e desconfortável sobre a cerca de Ceuta.

Enquanto a península se blindava contra os perigos ocultos da astronomia, dezenas de milhares de almas decidiram que a fronteira sul da Europa era uma espécie de festival de Verão sem bilhete. Entraram aos milhares por Ceuta dentro, em maré humana, perante o olhar atónito e impotente de um contingente que, naquelas primeiras e cruciais horas, parecia mais reduzido do que a equipa de limpeza de uma repartição de finanças em Agosto. Quando o assunto é defender a integridade territorial da União Europeia, o Estado hesita, gagueja, consulta os manuais do politicamente correcto e deixa as férias dos agentes correrem até ao limite do tolerável. Só mais tarde — quando o estrago já está feito e a fotografia política é catastrófica — é que se suspendem licenças e se enviam os remendos do costume.

A ironia da coisa é de uma fineza extraordinária, quase poética. Temos uma Europa extraordinariamente musculada, vigilante e eficaz a gerir o trânsito dos caçadores de eclipses; e temos essa mesma Europa de braços caídos, anémica e desorientada perante a pressão migratória nas suas barbas africanas.

Prioridades. Protege-se o cidadão da cegueira solar provocada pela sua própria estupidez de olhar directo para o astro-rei, mas deixa-se a fronteira cega perante a realidade geopolítica mais evidente do nosso tempo. Madrid preferiu pôr trinta mil polícias a guardar o Sol, esquecendo-se de que a verdadeira tempestade não vinha do céu, mas sim a nado pela praia de Tarajal. No fundo, o eclipse mais perigoso não foi o da Lua sobre o Sol. Foi o do bom senso sobre a governação.

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