Fala-se muito de habitação em Portugal. Multiplicam-se os debates, sucedem-se as manifestações e repetem-se as promessas políticas. Há quem não consiga comprar casa, quem não consiga pagar uma renda e quem, apesar de trabalhar, veja cada vez mais distante a possibilidade de ter um lar próprio. Esta é uma realidade que não pode ser ignorada.
Mas, quando o país discute a crise da habitação, há uma pergunta que raramente é colocada: e quem vive num território onde, além de faltarem casas verdadeiramente acessíveis, faltam também as condições básicas para viver com dignidade?
Escrevo a partir de Trás-os-Montes, de uma aldeia com cerca de 20 habitantes, onde o saneamento básico continua a não ser uma realidade. Escrevo de um território onde o despovoamento não é uma estatística apresentada numa conferência de imprensa.
É aquilo que vemos todos os dias: casas fechadas, população envelhecida, jovens que partem e serviços que ficam cada vez mais distantes.
É daqui que olho para a polémica da habitação e para as manifestações que têm levado pessoas à rua.
Compreendo a revolta de quem trabalha e não consegue pagar uma renda.
Compreendo a angústia dos jovens que adiam a saída de casa dos pais, dos casais que não conseguem constituir família e das famílias que vivem com o orçamento no limite.
A habitação é uma necessidade básica, não um luxo. Ter um teto digno não deveria ser um privilégio reservado a quem nasceu com condições financeiras favoráveis.
Mas há uma realidade que também precisa de ser ouvida: Portugal não é apenas Lisboa, Porto e os grandes centros urbanos.
E desengane-se quem ainda pensa que no interior as casas são necessariamente baratas. Em Trás-os-Montes, os preços também começam a atingir valores incomportáveis para muitas famílias. Há imóveis antigos a precisar de obras profundas, cujo preço de aquisição, somado ao custo dos materiais, da mão de obra e das restantes despesas, torna o sonho de ter casa própria cada vez mais distante.
Tudo isto num território onde os salários e as oportunidades de emprego nem sempre acompanham o aumento do custo de vida.
Afinal, que alternativa estamos a oferecer aos portugueses? Dizemos aos jovens que saiam dos grandes centros e procurem o interior, mas esquecemo-nos de lhes perguntar onde vão trabalhar, como vão pagar uma casa, que serviços terão disponíveis e que futuro poderão construir para os seus filhos.
O interior não precisa de discursos bonitos. Precisa de condições para viver.
E é impossível falar dessas condições sem falar da agricultura, de quem trabalha aterra e de quem continua a produzir apesar de todas as dificuldades. Em Trás-os-Montes, a agricultura e a pecuária não são apenas atividades económicas.
São parte da nossa identidade, da nossa paisagem, da nossa cultura e da própria sobrevivência das aldeias.
No entanto, quem vive da terra conhece bem o peso dos custos de produção, a burocracia, as exigências administrativas, a instabilidade dos rendimentos e as dificuldades em garantir a rentabilidade de uma exploração agrícola. Os produtores são chamados a cumprir cada vez mais obrigações, mas nem sempre encontram do outro lado medidas que lhes permitam continuar a trabalhar com segurança económica e perspetivas de futuro.
Exige-se que produzam, que preservem a paisagem, que mantenham os terrenos limpos e que contribuam para prevenir incêndios. Mas é legítimo perguntar: que condições lhes são dadas para continuar?
Não podemos exigir um interior vivo e, ao mesmo tempo, tornar cada vez mais difícil a vida de quem o mantém vivo. Não podemos falar de coesão territorial enquanto os pequenos produtores sentem que as políticas agrícolas, os custos e a carga
burocrática os empurram para uma luta permanente pela sobrevivência.
Quando uma exploração encerra, não desaparece apenas uma atividade económica.
Perde-se rendimento local, perde-se capacidade produtiva e enfraquece-se uma comunidade. Quando uma família abandona uma aldeia, não fecha apenas uma porta: desaparece mais uma parte da vida daquele território.
É por isso que a discussão da habitação tem de ir muito além dos preços das rendas e das manifestações nas cidades. Tem de incluir as políticas que contribuem para concentrar oportunidades nos grandes centros e deixam o interior a tentar sobreviver com cada vez menos população e menos atividade económica.
Também precisamos de falar das responsabilidades das autarquias. Uma autarquia não pode limitar-se a gerir o presente, inaugurar obras ou apresentar resultados que produzam efeitos imediatos. Governar é antecipar problemas, planear o território e tomar decisões que possam não dar frutos políticos amanhã, mas que sejam essenciais para as próximas gerações.
De que serve falar de desenvolvimento se continuamos a ter aldeias sem saneamento básico? De que serve lamentar o despovoamento se não são criadas condições para fixar famílias, atrair investimento e recuperar habitações? De que serve promover o concelho em eventos e campanhas se, em algumas localidades, continuam por resolver necessidades tão elementares?
Não se trata de desvalorizar as obras realizadas nem de negar as dificuldades financeiras e administrativas que os municípios enfrentam. Trata-se de exigir prioridades, planeamento e uma visão que não se esgote no próximo orçamento ou no próximo ciclo eleitoral.
O saneamento básico, a recuperação do património habitacional, a criação deoportunidades económicas, o apoio à atividade agrícola e a fixação de jovens não podem continuar a ser tratados como assuntos secundários. São condições fundamentais para garantir que os nossos concelhos têm futuro.
Uma política autárquica verdadeiramente orientada para as pessoas tem de olhar para além do imediato. Tem de perceber que investir numa aldeia pequena também é investir no concelho. Que uma família que permanece no território contribui para a
economia local. Que uma exploração agrícola viável ajuda a manter a paisagem, a prevenir o abandono dos terrenos e a preservar uma atividade essencial.
E que uma casa recuperada, numa aldeia com futuro, pode significar muito mais do que um imóvel reabilitado: pode significar o regresso de uma família, a abertura de uma nova oportunidade e a recuperação de uma comunidade.
Enquanto cidadã, considero essencial que as preocupações das populações do interior tenham um lugar central no debate político nacional. Não podemos aceitar que os problemas de uma aldeia sejam considerados menos urgentes apenas porque afetam poucas pessoas ou porque não geram a mesma visibilidade mediática.
A dimensão de um problema não se mede apenas pelo número de pessoas que consegue mobilizar. Mede-se também pelo impacto que tem na vida de quem o enfrenta e pelas consequências que a sua perpetuação terá no futuro.
As manifestações são uma forma legítima de participação cívica. Mas os portugueses que vivem longe dos grandes centros também têm direito a ser ouvidos, mesmo quando não conseguem encher uma praça ou transformar a sua realidade num tema
nacional.
Não devemos colocar portugueses contra portugueses. Quem luta por uma renda que consiga pagar e quem luta para manter uma exploração agrícola viável não são adversários. São pessoas que, em contextos diferentes, procuram condições para
viver e trabalhar com dignidade.
O que devemos questionar são as prioridades políticas, a eficácia das medidas adotadas e a falta de uma visão integrada para o país.
Porque não basta construir casas se não existirem condições para viver nelas. Não basta pedir aos jovens que regressem ao interior se não lhes dermos oportunidades para ficar. E não basta falar de agricultura e de desenvolvimento rural se
continuarmos a dificultar a vida de quem produz.
Numa aldeia com cerca de 20 habitantes e sem saneamento básico, a crise da habitação não se mede apenas pelo preço de uma casa. Mede-se também pelo abandono, pela falta de oportunidades, pelas dificuldades de quem trabalha a terra e pela sensação de que há territórios condenados a esperar indefinidamente por aquilo que deveria ser básico.
O interior não precisa de compaixão ocasional, nem de visitas em tempo de campanha. Precisa de políticas concretas, investimento, infraestruturas e respeito.
Precisa de autarcas que pensem nas próximas gerações e de governantes que compreendam que Portugal não termina onde acabam as grandes cidades.
Uma aldeia não desaparece de um dia para o outro. Vai desaparecendo sempre que mais uma família parte, mais uma exploração encerra, mais uma casa fica vazia e mais uma necessidade básica continua por resolver.
E quando finalmente repararmos que já quase ninguém lá vive, talvez seja tarde demais para perguntar por que razão ninguém ficou.
O futuro do interior não se defende com discursos. Defende-se criando condições para que as pessoas possam viver, trabalhar, produzir e envelhecer com dignidade na terra que escolheram como sua.