Trabalhadores sobrequalificados recebem abaixo 36,8% do esperado para a qualificação

Os trabalhadores sobrequalificados com ensino superior recebiam em 2023, em média, menos 36,8% do que aqueles cujas funções correspondem ao seu nível de formação, segundo um estudo, que indica ainda que a precariedade se mantém "muito elevada" no privado.

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“A sobrequalificação entre os trabalhadores com ensino superior está associada a desigualdades salariais relevantes e a diferentes exposições a vínculos laborais atípicos”, aponta um estudo do Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social (CoLABOR), que será apresentado na quarta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Segundo o estudo, “em 2023, o ganho médio dos graduados do ensino superior sobrequalificados era 36,8% inferior ao dos que tinham uma profissão ajustada à sua qualificação escolar”. Adianta ainda que “os sobrequalificados estão mais expostos à precariedade contratual (27%)” face aos que têm salário compatível com as suas qualificações.

Há ainda diferenças entre a sobrequalificação da população imigrante e da população autóctone, sendo que “a sobrequalificação escolar do conjunto da população estrangeira empregada no setor privado em Portugal era, em 2023, de 27,1% e de 44,9% para o grupo mais restrito da população estrangeira empregada com ensino superior”, isto é, “valores bastante superiores aos apurados para o conjunto da população empregada no setor privado”, referem os autores.

O estudo ‘Trabalho, Emprego e Proteção Social 2025’ aponta que a precariedade contratual “mantém uma expressão muito elevada no setor privado em Portugal” e em 2023 um terço dos trabalhadores do privado tinham contratos não permanentes, “valor que cresce substancialmente nas coortes mais jovens e em vários municípios do país – com particular ênfase para os da costa alentejana e Algarve”.

Entre as justificações encontradas pelos autores para estes dados está “o facto de a contratação não permanente ser tipicamente involuntária, ou seja, as pessoas aceitam trabalhar com contratos a termo porque não encontraram um emprego em que lhes fosse oferecido um contrato sem termo”.

Por outro lado, apesar de as desigualdades de género terem vindo a recuar nos últimos anos no mercado de trabalho, “subsistem ainda iniquidades consideráveis quer ao nível das oportunidades, quer no que diz respeito ao gap remuneratório”.

Deste modo, o estudo sinaliza que enquanto as mulheres representam cerca de 45% do emprego a tempo inteiro no setor privado, apenas detêm 36% das posições de liderança e que as mulheres dominam cargos de gestão relacionados com o cuidado, mas estão sub-representadas em posições executivas (28,4%), sendo que o diferencial salarial ajustado neste grupo profissional chega aos 21%.

Os impactos da transição climática no emprego foram outros dos objetos de analise deste estudo, que indica que os empregos ‘verdes’ (aqueles que contribuem direta ou indiretamente para uma economia de baixo carbono ou carbono líquido zero) têm aumentado em termos absolutos, mas diminuído enquanto proporção do emprego total.

Em 2023 havia 463,4 mil trabalhadores do setor privado em atividades classificadas como verdes, mais 105,2 mil do que em 2014 e que representavam 13,1% do emprego total (isto é, abaixo dos 14,6% registados em 2010).

Já a análise aos empregos ‘castanhos’ evidencia uma forte concentração das emissões: 80% dos trabalhadores exercem profissões que representam apenas 15% das emissões, enquanto os restantes 20% concentram 85% do total.

“Este padrão mostra que um conjunto reduzido de profissões é responsável pela grande maioria das emissões, tornando-as especialmente expostas às políticas de redução de gases com efeito de estufa”, salienta o CoLABOR, em comunicado, apontando ainda que no total “estima-se que entre 126 mil e 300 mil empregos possam vir a sofrer transformações profundas, tanto em número como em conteúdo funcional, para responder às exigências de redução drástica das emissões”.

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