A Base das Lajes, situada na ilha Terceira, nos Açores, é muito mais do que uma infraestrutura militar. É um dos principais ativos geoestratégicos de Portugal no Atlântico e um pilar histórico da cooperação entre Portugal e os Estados Unidos da América no quadro do Acordo de Cooperação e Defesa entre os dois países. Durante décadas, esta presença representou não apenas uma relevância militar e estratégica, mas também um forte motor económico e social para a ilha Terceira e para a Região Autónoma dos Açores.
Contudo, essa realidade sofreu uma mudança profunda com o processo de redução da presença norte-americana ocorrido entre 2015 e 2016, conhecido como “drawdown”. Esta decisão implicou uma diminuição significativa do contingente militar e civil na base e teve consequências severas para a economia local, traduzindo-se na perda de centenas de postos de trabalho e numa quebra relevante da atividade económica da ilha Terceira.
Quase uma década depois, os efeitos desse processo ainda se fazem sentir. Muitos dos compromissos assumidos para mitigar os impactos económicos continuam por concretizar plenamente, enquanto a ilha enfrenta ainda desafios estruturais de recuperação económica. Ao mesmo tempo, persistem problemas laborais que afetam trabalhadores portugueses ao serviço das forças norte-americanas, incluindo denúncias de desatualização salarial e situações que colocam em causa condições laborais justas.
Mais recentemente, têm surgido rumores sobre uma possível nova reorganização operacional da Base das Lajes. Ainda que não estejam, para já, associados a despedimentos de trabalhadores portugueses, a experiência passada exige prudência e transparência. A população da ilha Terceira conhece bem as consequências de decisões tomadas sem o devido envolvimento das comunidades afetadas.
Paradoxalmente, este debate surge num momento em que o contexto internacional reforça novamente a importância estratégica dos Açores. A crescente instabilidade geopolítica em várias regiões do mundo, incluindo no Médio Oriente, tem voltado a destacar o papel logístico do Atlântico nas operações militares e no transporte estratégico entre a Europa e outros continentes. Nesse contexto, a Base das Lajes volta a assumir um valor estratégico que muitos consideravam esquecido.
Mas a pergunta central mantém-se: que benefícios concretos está Portugal — e em particular a ilha Terceira — a retirar dessa importância estratégica?
Não basta reconhecer o valor geopolítico da Base das Lajes. É necessário que esse valor se traduza em contrapartidas reais para o país e para os Açores. Isso passa por garantir investimentos em infraestruturas, potenciar a utilização logística e civil das capacidades aeroportuárias existentes e criar condições para atrair atividade económica que contribua para o desenvolvimento da ilha Terceira.
Ao mesmo tempo, é imperativo assegurar a proteção dos trabalhadores portugueses que exercem funções naquela infraestrutura em território nacional. A sua dignidade laboral e a justiça das suas condições salariais não podem ficar dependentes de ambiguidades administrativas ou de lacunas nos mecanismos de supervisão do Estado português.
Portugal tem nos Açores um dos seus maiores ativos estratégicos no mundo. A Base das Lajes não pode continuar a ser encarada apenas como um ponto logístico ao serviço de interesses internacionais, sem que o país e a região beneficiem plenamente desse papel.
É tempo de exigir transparência, respeito pelos trabalhadores e uma estratégia clara para transformar a importância geopolítica da Base das Lajes num verdadeiro motor de desenvolvimento para a ilha Terceira e para os Açores.
Porque quando falamos da Base das Lajes, não falamos apenas de geopolítica. Falamos de pessoas, de empregos, de economia regional e do lugar de Portugal no Atlântico.