Sou mãe. E nunca esquecerei o dia em que entrei no Hospital de Cascais para dar à luz. O meu parto foi complicado. De risco. Houve momentos em que cada minuto parecia uma eternidade. Momentos em que percebi que estar no sítio certo, à hora certa, com a equipa certa, podia fazer toda a diferença. Hoje penso: e se tivesse de percorrer mais 30, 40 ou 50 quilómetros?
O encerramento das urgências de obstetrícia e pediatria no Barreiro e em Vila Franca de Xira não é uma mera reorganização administrativa. É uma decisão que tem impacto real no tempo de resposta em situações onde minutos contam. Nos últimos anos, as urgências obstétricas da região de Lisboa e Vale do Tejo foram repetidamente encerradas por falta de médicos especialistas.
Segundo dados divulgados pelo próprio Ministério da Saúde, dezenas de turnos ficaram descobertos em 2023 e 2024. A Ordem dos Médicos alertou para o risco de rutura do sistema e para a exaustão das equipas. A solução apresentada passa pela concentração de serviços em unidades consideradas de maior capacidade. A intenção pode ser garantir segurança clínica. Mas a pergunta permanece: segurança para quem está perto e para quem está longe?
O Hospital do Barreiro serve uma população superior a 200 mil pessoas na Península de Setúbal. Em 2022, o Centro Hospitalar Barreiro Montijo registou 1.585 partos. São 1.585 histórias. 1.585 famílias. 1.585 momentos que exigiram proximidade e resposta imediata. Quando uma grávida entra em trabalho de parto prematuro, quando há uma hemorragia súbita, quando há sofrimento fetal, não se faz cálculo político. Faz-se corrida contra o tempo. E o tempo, nas urgências obstétricas, não é um detalhe técnico. É um fator de sobrevivência. Não se trata de alarmismo.
Trata-se de humanidade. Reorganizar pode ser necessário. Mas reorganizar não pode significar afastar cuidados de quem mais precisa deles. Não pode significar transformar quilómetros em risco acrescido.
Não pode significar ansiedade para uma mãe que já carrega medo suficiente. A saúde materna não é uma estatística. É um compromisso civilizacional. Porque quando uma urgência fecha, não fecha apenas uma porta hospitalar. Fecha um tempo de vida que não volta atrás.