Todos os anos, quando são apresentadas as contas do Município do Montijo, surge invariavelmente a mesma mensagem triunfante: “as contas estão sólidas”, “a Câmara tem autonomia financeira”, “há equilíbrio e rigor”. E, de facto, quando olhamos para os números de 2025, ninguém pode negar: a autarquia apresenta uma situação financeira quase irrepreensível.
Mas é precisamente aqui que começa o problema: as contas dizem muito sobre a capacidade financeira do Município, mas dizem muito pouco sobre a sua capacidade de governação.
Uma autarquia riquíssima… mas sem obra equivalente
O balanço impressiona qualquer pessoa minimamente atenta às finanças públicas:
Ativo superior a 283 milhões de euros,
Passivo inferior a 15 milhões,
Autonomia financeira de 95%,
Praticamente sem dívida,
Resultado líquido positivo de 2,6 milhões,
Tesouraria reforçada,
Excedente orçamental de quase 8 milhões,
Saldo final de operações orçamentais a rondar os 20 milhões.
Estes números seriam motivo de orgulho em qualquer município. E são, de facto, sinal de boa saúde financeira. Ninguém põe isso em causa.
Mas a pergunta que verdadeiramente importa é outra:
Se o Município tem tantos recursos, onde estão os resultados? Onde está a obra? Onde está a melhoria da qualidade de vida?
O que vemos, infelizmente, é uma autarquia que acumula meios mas não transforma esses meios em soluções:
bairros que esperam requalificação há décadas,
escolas com problemas estruturais,
mobilidade estagnada,
falta de visão para a habitação,
espaços públicos degradados,
atraso crónico na execução de projetos essenciais,
oportunidades perdidas em financiamento comunitário,
e promessas que se sucedem sem calendário, sem transparência e sem resultados palpáveis.
Quando os saldos crescem ano após ano, isso não é apenas sinal de prudência.
É, sobretudo, sinal de execução insuficiente.
O paradoxo do Montijo: contas exemplares, governação insuficiente
Uma Câmara financeiramente tão forte deveria ser uma máquina de investimento, de transformação urbana, de progresso. Mas, no Montijo, a realidade é precisamente o contrário: temos uma das Câmaras mais robustas do país… e uma das que menos se vê no terreno.
A população não sente um território em transformação.
Sente um território que espera.
E esperar, com contas tão positivas, deixa de ser compreensível.
Passa a ser injustificável.
Dinheiro parado é cidade parada
A boa gestão não é apenas arrecadar receita e controlar despesa.
Boa gestão é executar. É realizar. É transformar.
E o que os números mostram é que a Câmara tem folga mais do que suficiente para:
construir e reabilitar habitação,
modernizar e ampliar escolas,
melhorar a mobilidade urbana e pedonal,
reforçar a ação social,
apostar na requalificação do espaço público,
investir fortemente na transição energética,
preparar o concelho para o crescimento que está a acontecer, e não apenas reagir a ele.
Mas ano após ano, os saldos aumentam.
E a cidade… não acompanha.
Montijo merece mais do que contas certas.
Montijo merece resultados.
Uma autarquia financeiramente rica mas operacionalmente pobre não serve as pessoas. Serve apenas a contabilidade. E não é essa a função de um executivo municipal.
A população do Montijo merece ver traduzidos na rua, nas escolas, nas praças, nos bairros, nas freguesias… os milhões que aparecem nas contas.
Merece uma gestão com ambição, com visão e com obra.
O que falta não é dinheiro.
O que falta é execução.
E enquanto esse ciclo não for quebrado, continuaremos a ter um Município que guarda riqueza… em vez de gerar desenvolvimento.