O conhecido Pacheco Pereira desafiou André Ventura para um debate sobre o 25 de Abril. Achando, dada a sua fama de historiador, que o líder patriota se iria amedrontar. Ou que, caso se atrevesse a aceitar, seria, obviamente, esmagado.
Para grande azar do maoísta, Ventura aceitou. Mais concretamente, concordando em como seriam debatidos os presos em Portugal Continental. No imediatamente antes e nos dezanove meses seguintes ao golpe.
André Ventura afirmou, no seu estilo emotivo que, não apenas havia muitos mais presos políticos. Mas muitas prisões foram com mandatos assinados em branco. Ou mesmo sem qualquer mandato. E que nunca tinham tido sequer culpa formada!
Fonte dificilmente refutável: o Relatório das Sevícias. Ordenado pelo Conselho da Revolução, sendo presidente Costa Gomes. Constando do mesmo a noção de prisões não relatadas, pois nenhum registo havia!
Pacheco Pereira começou por negar. Não, não havia mais presos políticos aquando do 25 de Novembro do que no dia 25 de Abril! Tentou distorcer os factos: eram agentes da PIDE e legionários! (Pelos vistos, para o docente, integrar a Legião Portuguesa era um crime.)
O ex-maoísta rejeitou a veracidade do Relatório das Sevícias. Como autoridade oponente, invocou Jorge Sampaio. O qual, á época, militava no MES, satélite do PCP. Autoridade “moral” de imediato rejeitada por Ventura.
Outra das estratégias: invocar números do total de presos em Portugal e ex-províncias, ao longo da duração do Estado Novo. Manobra que o líder nacionalista rejeitou, classificando de terroristas os “guerrilheiros” comunistas da África Portuguesa. Chegado a tal ponto, JPP tentou uma manobra farisaica: se Portugal fosse invadido, o oponente bater-se-ia? Claro que sim! “Então, terá de optar se os guerrilheiros são nacionalistas ou presos políticos”. Algo forçado; se pensarmos que nenhuma das ex-províncias era um país e que se existia como unidade territorial e linguística, era graças á presença portuguesa.
O certo é que, quando Ventura frustrou essa tentativa, tentou uma jogada psicológica. Recusou-se a comparar o ano e meio pós-25 A (dezanove meses, por sinal) com os 48 anos da Ditadura!
Ou seja, recusou, indignado, o tema do debate que propusera! Exatamente, esse: o número de presos políticos, em Portugal Continental (e Adjacente) aquando do 25-A.
O autor destas linhas nasceu em janeiro de 1961; tinha 13 anos quando foi o 25 de Abril. As memórias desse terrível ano letivo de 1974/75 são a dum adolescente de 13 para catorze anos, fortemente motivado.
A primeira grande leva de presos foi após o 28 de Setembro, quando Spínola se demitiu da presidência. Pensando em presos políticos nessa altura, vários nomes ocorrem. O locutor Artur Agostinho. Preso nessa data, sem nunca ter havido acusação formal. No seu livro” Até na prisão fui roubado” atribui a detenção a intrigas de invejosos. Outro detido foi Kaúlza de Arriaga, ex-comandante de Moçambique. Até então, sem qualquer atividade política.
Uns vinte anos depois, em jornais da época, o autor destas letras encontrou notícias de detenções. O texto, fortemente politizado, referia um “ocioso” preso em casa, em roupão ás 10 da manhã. Entre outros nomes, um tenente-coronel Diocleciano Serrano, eventual parente.
Mais á frente, nos primeiros meses de 1975, sai a proibição de arrancar cartazes políticos. Chega o pai deste vosso amigo a casa alarmado” O Manuel Villas-Boas foi preso, por ter rasgado um cartaz comunista! Estavam dois jipes da PM a espera dele. E até usa canadianas. Agora, vê lá se tens cuidado! “O alerta não surtiu demasiado efeito.
O partido comunista deu mais um passo importante com outra inventona: o 11 de Março. Pseudo-golpe militar falhado, protagonizado por alegados spinolistas. Na prática, pretexto para impedir o crescente Partido da Democracia Cristã de concorrer às constituintes. E executar centenas de prisões.
Sempre presente, a imagem de dois adolescentes retornados na RTP. Um branco e um mestiço. Presos em Agosto no COPCON. Libertados no 25 de Novembro, mostraram as marcas da tortura que lhes tinham aplicado.
Quanto ao comandante de Moçambique, Pacheco Pereira exibiu uma moca de Rio Maior! Declarando que fora uma oferta dos agrários ao gen. Kaúlza de Arriaga. Falso! Uma moca foi oferecida ao gen. Galvão de Melo, em Julho/Agosto de 1976. Este vosso mandatário recorda-se dele a ter exibido e declarado que pesava 660gms. JPP já era um homenzinho; tinha a obrigação de saber isto. Mas, á boa maneira maoísta, acha que a oferta duma moca em 1976-mesmo falsa-fundamenta a prisão do futuro dono, em 1974!
JPP teve a vantagem de Ventura haver nascido oito anos depois do PREC. Facto assente: um ano após o 25-A, em Portugal havia dois mil presos políticos.
Pacheco Pereira pode ter saído da extrema-esquerda; mas o maoísmo não saiu dele. Sem dúvidas: André Ventura venceu o debate!