Com o crescimento dos movimentos de direita radical ao nível europeu, especialmente de partidos rotulados como populistas, conservadores ou nacionalistas, surge um fenómeno que merece uma análise séria. Olhamos para o caso português com o CHEGA, o espanhol com o Vox, o francês com o National Rally e até o próprio caso italiano, para citar apenas alguns exemplos óbvios.
No entanto, perante este cenário, emerge uma distinção que parece estar cada vez menos presente na perceção das pessoas: a forma como identificamos e rotulamos estes projetos. Existe uma linha, por vezes ténue mas fundamental, que separa a direita radical de algo mais profundo, e essa clareza está a perder-se no debate público.
Muitas vezes, estes partidos são associados quase por instinto a movimentos autoritários do passado, com base nos seus ideais conservadores e nacionalistas. À partida, a direita radical parece estar próxima da extrema-direita, mas a verdade é que existe uma diferenciação profunda no que toca ao respeito pelas instituições. Um partido de direita radical, mesmo que pretenda mudar aspetos estruturais da nossa cultura ou da nossa sociedade, continua a querer fazê-lo através dos meios democráticos e dentro do sistema. Podemos ver o caso de Giorgia Meloni, em Itália, mesmo sendo uma política assumidamente de direita radical, tem operado dentro das “quatro linhas” das instituições.
O real perigo, contudo, não reside necessariamente na direita radical. Esta poderá ter os seus contras e os seus prós, mas continuará a operar num sistema democrático. Aliás, é um princípio da própria democracia que, se as pessoas estão descontentes e querem votar num partido antissistema ou num partido de direita radical, têm o direito de o fazer. Da mesma forma, caso esse partido não preste um bom serviço, as pessoas têm o direito de voltar a votar e de o tirar do poder. É a base da soberania popular.
A verdadeira problematização atual surge quando, ao chamarmos “extrema-direita” a um partido de direita radical, anulamos totalmente essa diferenciação. Qual é o perigo disto? O risco é que, no eventual surgimento de um movimento de extrema-direita real, a sociedade já não terá anticorpos para o identificar. Se rotulamos tudo o que é radical como “extremo”, as pessoas vão olhar para o novo movimento e achar que é “apenas mais um”. Assim, certas instituições e o próprio voto popular deixam de ter presente essa fronteira, resultando na normalização dos extremos.
A questão não é apenas sobre concordar ou não com ideais de direita, conservadores ou nacionalistas. Mas, quando as posturas são aceites como “normalidade” por uns e diabolizadas como “extremo” por outros, a confusão instala-se. Se houvesse essa distinção clara a nível popular, o entendimento de que a direita radical é democrática faria com que os grupos de verdadeira extrema-direita fossem muito mais facilmente identificados e excluídos.