Ainda estamos recordados do que foi o famoso debate entre André Ventura e José Pacheco Pereira. Este maoísta tinha desafiado Ventura para um debate sobre a realidade de haver ou não, mais presos políticos em Portugal Continental (e Adjacente) aquando do 25 de Abril, ou se durante o ano e meio do chamado PREC. E Ventura venceu.
Em defesa desse maoísta saiu outro Pereira, António Garcia Pereira. Este, não seguiu os ziguezagues políticos de JPP. Continua a afirmar-se maoísta e a declarar que o atual regime de Pequim é “social-fascista” (o que quer que isso seja). Mas este, é o MRPP. O partido que, até ao 11 de Março, era o “mais comunista do que o PCP”. Esse papel passou, então, a ser ocupado pela UDP.
No entanto, era um amor não correspondido. Pequim reconhecia (e subsidiava) o PC-P(m-l), no qual militava Pacheco Pereira.Caso estivessem na China, provavelmente, estes Pereiras tratariam de se matar um ao outro.
Dissemos já que, uma das “desvantagens” de Ventura em relação ao JPP era ser muito novo. Não ter vivido o PREC.
Em anterior debate com Garcia Pereira, a deputada populista Vanessa Barata exibiu a foto dum cartaz. Candidatura ao Parlamento Europeu pelo MRPP: “Pena de morte para os traidores”. Cabeça de lista: Garcia Pereira.
Na sequência do debate, este esquivou-se a especificar que traidores. Tornou-se evidente que a deputada desconhecia a amplitude da brutalidade do sistema que Garcia defende. Nomeadamente, o facto de as execuções na China de Mao fazerem parte da realidade quotidiana.
Garcia Pereira declarou que o outro Pereira (Pacheco) procurou ter uma atitude pedagógica! Ou seja, ia “ensinar” ao “ignorante” a realidade do PREC. Só que, diz ele, o que houve foi um combate de boxe! Pacheco Pereira enfrentou um “lutador profissional”, que o interrompeu constantemente!
Entretanto, vem afirmar que, com o “fascismo não se debate: combate-se”. Ou seja, o líder patriótico ser um “boxer” é errado; já correto é combater o “populismo”.
(Sempre se diga que, se qualquer dos Pereiras tivesse a triste ideia de combater, literalmente, André Ventura, o mais provável seria sofrer uma experiência dolorosa).
O líder MRPP repete a “inevitabilidade” da revolução proletária. Até porque, explica, hoje há mais tecnologia incorporada nos comuns telemóveis do que na primeira nave que pousou na Lua! Portanto, afirma Pereira, quer se queira, quer não, o maoísmo vem aí.
É nítido que os portugueses, mormente os mais jovens, desconhecem o que foi o maoísmo.
Vários dos maoístas de há cinquenta e cinco anos, vieram a ter papel de destaque, na cena política. Entre diversos “jovens idealistas”, o inevitável Pacheco Pereira, Durão Barroso, o então secretário-geral Saldanha Sanches e Ana Gomes, figura de peso.
O sistema ideal desses meninos ricos, todos então do MRPP, era a China de MAO.
A disputa que havia entre o paraíso de Cunhal e a China era mais ou menos aproveitada pelo Ocidente. O que fez com que pouquíssimo se falasse dos genocídios levados a cabo na China.
A bestialidade da implantação do comunismo na China foi ampliada pelo facto de ser o país mais populoso do mundo. O início da república comunista em 1949 foi brutal; mais do que na URSS. Expropriações, internamento em campos de concentração, julgamentos populares e “execuções dos ricos”. Exigia-se, pelo menos, uma execução por aldeia. Nesse primeiro impacto, os números deverão rondar os cinco milhões.
A reforma agrária de 1958 teve o nome de Grande Salto em Frente. (Estavam á beira do abismo). Liderada por ignorantes em agronomia. Começaram por retirar as terras que numa fase inicial tinham sido “entregues” aos camponeses pobres.
Foram criadas comunas agrícolas de cinco mil habitantes. O que levou ao abandono dos campos por parte de 100 milhões de camponeses. Consequência: perda de grande parte das colheitas.
As decisões técnicas tinham, forçosamente, motivação ideológica. Foi assim que nas aldeias era proibido usar fornos domésticos, ou sequer fazer fogos, para cozinhar ou aquecer. AS portas eram usadas para alimentar os fornos coletivos. As vítimas mortais de frio deverão ter atingido as centenas de milhar.
O comunismo patriótico ia dar á China uma siderurgia nacional! Para tanto, os chineses foram obrigados a entregar ao partido todos os objetos em metal que possuíam. Em filas, a cantar e acompanhados por bandas.
Por muito revolucionários que fossem, os improvisados metalúrgicos desconheciam os rudimentos da fundição de metais. Pelo que os utensílios fabris, agrícolas e outros, pouquíssima utilização tiveram. O que levou à perda de mais explorações agrárias. Com mais milhões de mortos de fome,
Os “agrónomos” maoístas, decidiram forçar a Natureza reacionária. As sementes, tal como os revolucionários, “crescem melhor quando estão juntas”, declarou o Grande Timoneiro.
As sementes jovens foram destruídas pela ultra utilização das sementeiras. O excesso de escavação ressecou a terra. A substituição de cereais, como a cevada por trigo no Tibete, teve consequências catastróficas.
Para impressionar o mundo, MAO decidiu aumentar as exportações de cereais e diminuir as importações. O que, como na URSS dos anos 30, levou a que o país ficasse sem existências.
Perante o falhanço da Reforma Agrária, decidiu que era uma conspiração dos proprietários. Pelo que mandou retirar todo o grão aos camponeses. Mais mortos de fome, aos milhões.
Os pardais nos campos, comiam as sementes que” eram do povo”! Campanha com bombo e pratos: exterminar os pardais! Multiplicaram-se, em consequência, os insetos e destruíram diversas colheitas.
É oficial que nessa altura, houve canibalismo. “De pé, ó vítimas da fome!” começa a “Internacional”. Os levantamentos populares foram esmagados com milhares de mortes.
A contabilização de vítimas foi, oficialmente, de 30 milhões de mortes. Muito provavelmente, foram 45 milhões.
Na referência supra, da pedagogia, temos a “reeducação” dos elementos não-comunistas, mas “recuperáveis”. Feita diversas vezes, ao longo do poder do Grande Timoneiro.
As condições penitenciárias dos “inimigos do povo” eram de tal forma que levavam á morte de imensos, sem necessitar de execução. Os que eram acusados do crime de ser ou ter sido proprietários eram submetidos a julgamento público. Invariavelmente, condenados à morte, que era, muitas vezes, à paulada. As medidas penais não estavam tipificadas. Pelo que vários milhares foram condenados a ser enterrados vivos.
Em 1966 MAO, tinha sido afastado do poder real, dado o falhanço do Grande Salto em Frente. Era “presidente do partido”. No comando efetivo, estava o presidente da república, LI CHAO KI.
MAO contava com os escalões mais baixos das forças armadas e os Guardas Vermelhos. Estudantes já educados no comunismo. Como não estava no poder, pôde declarar: “Fogo sobre o quartel-general”.
Lançou os Guardas Vermelhos contra todo o aparelho de estado, contra tudo instituído. Incitou alunos, fisicamente, contra professores. E pôs os filhos a denunciar os pais. Os transeuntes que fossem vestidos à ocidental eram normalmente linchados na rua.
Uma das palavras de ordem da “Revolução Cultural” foi, exatamente, destruir o passado, para construir tudo de novo. Livros queimados, nomeadamente os didáticos. Destruição de monumentos, alguns milenares. Nos anos do PREC, os últimos de vida de Mao, decorria a “Campanha anti- Confúcio”.
Outra faceta foi a destruição dos cemitérios. Nivelados com rolos compressores. Ataques em direto a cerimónias religiosas. Com especial fúria contra as católicas.
As “velhas ideias”, os “velhos costumes” e a “velha cultura “eram transmitidos pelos professores. Logo, havia que eliminar os docentes. Os “estudantes” enraivecidos procediam a detenções públicas. Sendo os “reacionários” expostos à “justiça do povo”. Como aquele professor chamado “MA” (cavalo) que foi obrigado a comer erva num jardim. E um desgraçado que, após horas de detenção na praça pública, não conseguiu segurar mais tempo os intestinos. No meio de grande galhofa e aplausos, enfiaram-lhe na zona retal um pau.
Dados estatísticos: foram oficialmente executados, ou suicidaram-se, 142.000 docentes, 53.000 técnicos ou cientistas, 500 professores de medicina, 2600 escritores e artistas.
Tiveram lugar refeições oficialmente canibais. Não por uma fome levada ao desespero da desumanização, mas rituais revolucionários. O “povo” come os” inimigos da revolução”, diziam os cartazes convocatórios.
O ensino secundário esteve encerrado até 1970 e o superior até 1972. Por forma que, durante vários anos, a produção técnica, científica e artística foi ínfima. Como “cultural”, a revolução era realmente original.
O “Grande Timoneiro” sentiu que estava, ele também, a perder o controlo. Mandou, então, o Exército por cobro às agitações. Com mais alguns milhares de mortes.
Em entrevista posterior ao debate, o mesmo Garcia acusa o atual estado de coisas em Portugal. Os jovens não podem constituir família!
Tal acusação é delirante face ao mundo ideal desse causídico. A realidade família foi combatida, proibida e revertida na China de Mao. Eram interditas as refeições em família: tinham de ser coletivas. Nas fábricas ou nas cantinas de exploração agrícola.
Ainda em 1974, os livros do 1ºano diziam “Não gosto do Pai, Não gosto da Mãe, só gosto do Camarada MAO TSE TUNG”.
A senhora ex-procuradora Maria José Morgado contou na televisão que, nos saudosos tempos do MRPP era muito radical. Ao porto de ser conhecida no partido como MI-ZÉ-TUNG!
Há alguns anos, surge a então procuradora na capa de certa revista brincando com gatos. Título” Aqui há gato!”. No sistema por ela defendido, a simples posse de animais de companhia implicava pena de morte. Do dono. Pois as “bocas inúteis” iam, obviamente, integrar a gastronomia revolucionária.
Admitamos que os nossos “jovens idealistas “não saberiam da parte do canibalismo. Mas das destruições sabiam. Tanto que defendiam o mesmo para Portugal. Em 1976, em 7 de agosto, um comício do MRPP comemora em Moscavide o X aniversário da “Gloriosa Revolução Cultural Proletária “.
Com a morte de Mao em 1976, o sistema começou a moderar-se. E os incaraterísticos sucessores foram “aburguesando” o país.
Os jovens idealistas supracitados e outros, souberam deslizar discretamente para os partidos do sistema. Sem nunca efetuar um “mea culpa”. Outros, continuam a elogiar Mao, como o jurista Garcia.
Esse causídico passa por ser simpático. Até tem uma lancha de recreio! É este o sistema defendido por Garcia Pereira. Os que o acham simpático, nomeadamente ilustres colegas, podem imaginar qual seria o destino que os aguardaria, caso esta Revolução ocorresse em Portugal. Mas não vai ser.