Perda de sono pelo calor relacionado com clima duplicou, revela estudo

A perda de sono devido às altas temperaturas relacionadas com as alterações climáticas duplicou nos últimos 50 anos nas principais cidades do mundo, Lisboa incluída, indica um estudo hoje divulgado.

© D.R.

A investigação envolveu a análise de 1.338 cidades, incluindo a capital portuguesa, e foi da responsabilidade da “Climate Central”, uma organização que analisa e divulga informações sobre ciência climática.

Segundo o estudo, nos últimos cinco anos, no mundo, cada pessoa perdeu quase 56 horas de sono por ano em média devido às altas temperaturas.

Mais de 10% dessas horas perdidas são atribuídas às alterações climáticas causadas pelas emissões da queima de combustíveis fósseis e pela desflorestação.

Para Lisboa, a análise indica uma perda anual de 40 horas de sono devido ao calor, 10% das quais, quatro horas, causadas pelas alterações climáticas.

Madrid, a título comparativo, perde anualmente 30 horas de sono, 16% da quais (cinco horas) devido às alterações climáticas.

Segundo os autores, esta é a primeira análise a quantificar diretamente quantas horas de sono foram perdidas devido às alterações climáticas, juntando a investigação mais recente sobre o efeito das temperaturas no sono, fundamental para a saúde e bem-estar das pessoas.

A “Climate Central” aponta que as alterações climáticas estão a levar ao aumento das temperaturas noturnas em todo o mundo, “prejudicando o sono e causando uma série de impactos graves na saúde física e mental”.

O documento indica que é no Médio Oriente que se registam os níveis mais elevados de perda de sono atribuídos às alterações climáticas (entre 2020 e 2025).

Cidades da Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos perderam entre 55 e 87 horas de sono anualmente devido às temperaturas noturnas mais elevadas, com 12 a 16 dessas horas perdidas atribuídas às alterações climáticas.

Também no sul da Índia e em vários países do Sudeste Asiático as pessoas perderam entre 78 e 91 horas de sono em cada ano, entre oito e nove horas devido à mudança do clima.

Os autores do documento realçam que as altas temperaturas noturnas são particularmente perigosas, pois impedem o corpo de arrefecer e de recuperar do calor diurno, o que aumenta o risco de acidentes vasculares cerebrais, outras doenças cardiovasculares e mortalidade.

As noites quentes também degradam a qualidade e a duração do sono, com impactos negativos na saúde física e mental, no funcionamento cognitivo e no desenvolvimento das crianças, e reduz a esperança de vida.

Os impactos dessas noites quentes são maiores nos idosos, crianças e mulheres grávidas. E as populações mais pobres são também mais afetadas, pelas diferenças na qualidade da habitação, incluindo o acesso a ar condicionado.

Nas cidades, devido ao efeito ilha de calor, as temperaturas podem ser substancialmente mais elevadas do que nas regiões à volta.

As alterações climáticas, dizem os responsáveis, estão a fazer aumentar mais rapidamente as temperaturas noturnas. No ano passado, cidades do Médio Oriente bateram recordes de temperaturas durante a noite.

Courtney Howard, presidente da Associação Médica do Canadá, diz citada num comunicado sobre o estudo que os adultos precisam de sete a nove horas de sono por noite para uma saúde ideal.

Outro estudo publicado recentemente, da organização não governamental “Adelphi Global”, também dá conta dos graves impactos causados pelo calor extremo induzido pelas alterações climáticas na saúde humana, que tem um efeito mais negativo nas pessoas mais pobres.

O relatório aponta que em casos extremos perdem-se 20 dias de trabalho por ano devido ao calor, o que em setores como agricultura ou construção pode resultar na perda direta de rendimentos, sem contar com gastos médicos, levando ao aumento do risco de pobreza.

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