Confesso que, enquanto ouvia o discurso do primeiro-ministro do passado dia 16, durante o debate sobre o estado da nação, tive a sensação de estar a reler Cervantes.
D. Quixote voltou. Desta vez não montado no Rocinante, mas à tribuna do parlamento.
Há quatrocentos anos via gigantes onde existiam apenas moinhos. Em 2026, parece haver quem veja um Portugal próspero, tranquilo e cheio de sucessos onde a maioria dos portugueses vê exatamente o contrário.
Luís Montenegro descreveu um país quase perfeito. Um governo que resolveu problemas, fez reformas e colocou Portugal no caminho certo. Faltou apenas dizer que os hospitais estão vazios porque já ninguém adoece, que nas escolas sobram professores e que a criminalidade entrou de férias.
A coincidência do calendário foi cruel. No mesmo dia em que o Primeiro-Ministro pintava um retrato cor-de-rosa do país, uma sondagem mostrava que 51% dos portugueses acreditam que Portugal está pior do que há um ano. Outros 35% dizem que está igual. Apenas 12% consideram que o país melhorou.
Então a pergunta é inevitável: de que Portugal estava a falar o primeiro-ministro?
Do Portugal onde milhares de pessoas continuam sem médico de família? Do Portugal onde há alunos sem professores e agora com o caos na correção dos exames? Do Portugal onde o ministro da administração interna vive mergulhado em polémicas? Ou do Portugal onde muitas famílias fazem contas antes de ir ao supermercado?
E já agora, convém lembrar um detalhe. Entre as medidas apresentadas como grandes vitórias do governo, há algumas que nem sequer nasceram da sua iniciativa. E outras só chegaram ao terreno depois de o CHEGA e André Ventura as defenderem durante meses, ou mesmo anos, enquanto eram ridicularizadas ou rejeitadas pelos partidos do costume.
O problema não é um governante querer destacar o que fez. Isso é natural. O problema começa quando o discurso deixa de descrever a realidade e passa a tentar substituí-la.
D. Quixote tinha Sancho Pança para o tentar trazer à razão. Luís Montenegro tem algo ainda mais difícil de contrariar: os portugueses. E esses sabem muito bem quanto esperam por uma consulta, quanto pagam no supermercado, quanto custa encontrar uma casa e quanto sentem que o país está longe da imagem vendida no parlamento.
Os moinhos continuam a ser moinhos. Por mais que alguém insista em chamar-lhes gigantes. E a realidade continua a ser realidade, por mais discursos que tentem transformá-la num conto de fadas.