”Santa Casa da Misericórdia de Serpa: Parte Tentacular de um Sistema Político que Destruiu uma Instituição”

Eça de Queirós escreveria, certamente, que em Portugal há instituições onde a incompetência não é um acidente, é um método de governação e a Santa Casa da Misericórdia de Serpa, Instituição secular criada para servir os mais frágeis, chegou a um Processo Especial de Revitalização (PER), realidade assumida pela própria instituição, que não caiu do céu, não foi vítima de um terramoto financeiro nem de uma conspiração internacional, caiu porque, durante anos, se confundiu gestão com propaganda, prudência com vaidade e responsabilidade com conveniência política. Assumiram-se compromissos de milhões, lançaram-se projetos de enorme dimensão, como o Centro Cirúrgico, multiplicaram-se promessas, mas esqueceram-se da regra mais elementar da economia, primeiro gera-se riqueza, depois distribui-se, pois como ensinava Milton Friedman, “não há almoços grátis.”

Agora, os mesmos que assistiram, apoiaram ou justificaram esse percurso aparecem vestidos de vestais da moral pública, indignados porque surgem soluções que escapam ao catecismo ideológico, onde Margaret Thatcher avisou, há décadas, que “o problema do socialismo é que acaba sempre por ficar sem o dinheiro dos outros.” e, em Serpa, parece que o dinheiro acabou, mas a ideologia continua abundantemente financiada pela ilusão, porque quando as contas entram no vermelho, a culpa nunca é da gestão, é sempre do mercado, dos privados, da conjuntura ou de qualquer inimigo conveniente, ou seja, é o velho teatro político onde os incendiários regressam vestidos de bombeiros.

Entretanto, trabalhadores vivem na angústia, fornecedores esperam pagamentos e idosos e doentes perguntam apenas se amanhã continuarão a ter cuidados, mas, entretanto, há quem prefira transformar uma Assembleia Geral num congresso ideológico, onde o pragmatismo é tratado como heresia, enquanto o dogma é elevado a virtude, pois Winston Churchill dizia que “o socialista acaba por ficar sem o dinheiro dos outros.” e, em Serpa, acrescentaria, talvez, que alguns parecem preferir ficar também sem instituições, desde que a cartilha permaneça intacta, em que, para certos setores, salvar uma Misericórdia com recurso a novas soluções é imperdoável, deixá-la afundar para preservar uma narrativa política parece-lhes perfeitamente aceitável.

Depois surgem os eternos “Velhos do Restelo”, agora acompanhados por estruturas sindicais cuja especialidade parece ser combater tudo o que possa alterar o “status quo”, onde criticam, gritam, protestam, organizam comunicados e manifestações, mas quando chega a hora de apresentar um plano financeiro credível, instala-se um silêncio sepulcral.

Peter Drucker lembrava que “a gestão é fazer bem as coisas; a liderança é fazer as coisas certas.”, mas, infelizmente, durante demasiado tempo não se fez nem uma nem outra, preferiu-se alimentar uma estrutura tentacular de influência política, onde o importante não era resolver problemas, mas conservar espaços de poder.
Em tempos alguém afirmava que “só é vencido quem desiste de lutar.”, o que é verdade, mas, também, só vence quem tem coragem de reconhecer os erros e esse exercício continua ausente, porque ninguém explica como uma instituição centenária chegou ao PER, ninguém assume responsabilidades políticas ou de gestão, ninguém pede desculpa aos trabalhadores que vivem na incerteza, aos utentes que receiam perder respostas sociais ou aos Serpenses que assistem ao declínio de um símbolo da sua terra.

A pergunta, por isso, continua inevitável, quem conduziu a Santa Casa da Misericórdia de Serpa até à beira do colapso financeiro tem legitimidade para impedir a sua recuperação apenas porque esta não cabe na sua visão ideológica?
A História demonstra que as instituições morrem quando a competência se rende ao sectarismo e, infelizmente, há tentáculos políticos que preferem governar ruínas do que perder o controlo do edifício.

O mais revelador é que a própria Mesa Administrativa, Demissionária, reconhece que só uma gestão responsável, sustentável e articulada, sem a carga Ideológica , de esquerda e extrema esquerda, e sem o desejo exacerbado da ganância do poder, poderá salvar a Instituição, ou seja, é a admissão inequívoca de que décadas de incompetência, irresponsabilidade e cegueira ideológica conduziram a Santa Casa da Misericórdia de Serpa ao colapso, que, hoje, todos aqueles que são responsáveis por tal, fingem lamentar.

Mas isso os Sindicatos não querem saber, nem o sistema associado a toda esta trapalhada se preocupa em ter transformado a Santa Casa da Misericórdia de Serpa no Rosto de um Sistema que Colapsou!

Artigos do mesmo autor

Portugal é um país extraordinário, consegue transformar direitos Constitucionais em exercícios de paciência e fazer do Serviço Nacional de Saúde (SNS) uma espécie de lotaria nacional, onde o prémio maior é conseguir uma consulta antes da reforma. O artigo 64.º da Constituição promete um SNS universal, geral e tendencialmente gratuito, mas, em Serpa e no […]

Em Portugal, discutir a RTP é quase um desporto Nacional, uns decretam-lhe o fim com a leviandade de quem muda de canal, outros defendem-na como relíquia sagrada, intocável e eterna, mas, talvez, a pergunta mais incómoda, por isso a mais evitada, não seja se a RTP deve existir, mas sim que RTP deve existir, pois, […]

A Europa, essa velha senhora de modos refinados e carteira sempre à beira de um suspiro, acorda novamente sobressaltada com o ruído distante, mas economicamente ensurdecedor, de mais um conflito no Médio Oriente e, como diria Winston Churchill, “os impérios do futuro são os impérios da mente” e, ao que parece, também do barril de […]

Há decisões governamentais que entram na História pela porta principal, outras escapam pela porta do cavalo e evaporam-se na chaminé do ridículo, onde a recente posição do Ministro Adjunto e para a Reforma do Estado, Gonçalo Matias, sobre o Tribunal de Contas deixar de se “substituir à administração” exala o perfume da modernidade administrativa, com […]

Há projectos de lei que nascem discretos, quase envergonhados, como quem pede licença para entrar pela porta do cavalo e há outros que entram de rompante, com a solenidade de quem acredita estar a salvar a República, mesmo que, no processo, lhe aperte a garganta, porque este Projeto de Lei nº 398/XVII/1ª surge assim, embrulhado […]