islamogauchismo, um novo termo a ter em conta

No passado mês de Fevereiro de 2026, em Lyon, Quentin Deranque, um jovem identitário de 23 anos, foi mortalmente agredido por antifascistas. O episódio ocorreu no rescaldo de confrontos gerados em torno de uma conferência da eurodeputada franco-palestiniana Rima Hassan, eleita pela La France Insoumise. Um detalhe pouco sublinhado no debate público: a violência eclodiu após um evento protagonizado por uma activista de origem palestiniana ligada à esquerda radical, uma contradição sórdida mas é um fenómeno político real, que atravessa a Europa e os Estados Unidos: o islamogauchismo.

O termo islamogauchismo ou islamo-gauchisme, de origem francófona, designa a convergência, real ou táctica, entre sectores da esquerda militante e correntes do islamismo político. Popularizado no início dos anos 2000 pelo historiador e filósofo Pierre-André Taguieff, no contexto da Segunda Intifada e da causa palestiniana, descreve uma aliança de circunstância face a inimigos comuns — o Ocidente liberal, o capitalismo, o “imperialismo” e, frequentemente, Israel, apesar de divergências profundas e até antagónicas no plano axiológico, cultural e social.
À primeira vista, a união parece impossível. A esquerda militante invoca o laicismo, o feminismo, os direitos LGBTQ+, o materialismo histórico e a crítica à religião. O islamismo político, por seu lado, defende a aplicação da charia, a primazia da lei divina, uma visão patriarcal da família. Estas contradições são estruturais. No entanto, a prática política revela uma convergência recorrente, alimentada pela motivação anti-Ocidente e, em versões contemporâneas, por uma leitura “anti-branca” ou anti-civilização ocidental. Ambos identificam o Ocidente, as suas instituições liberais e a sua herança capitalista e imperialista, como o principal opressor. A Palestina funciona como o grande catalisador simbólico que permite superar diferenças internas.
Historicamente, esta lógica não é nova. No Congresso de Baku de 1920, os bolcheviques tentaram aliar-se a povos muçulmanos contra as potências coloniais. Na Revolução Iraniana de 1979, sectores da esquerda apoiaram inicialmente Khomeini, vendo nele uma força anti-imperialista. Movimentos de libertação anti-coloniais viram frequentemente coligações tácticas entre marxistas e islamistas. A lógica do “inimigo do meu inimigo” prevalece: enquanto o alvo for o Ocidente, as diferenças podem ser adiadas.
Na contemporaneidade, esta aliança assume uma nova vertente paradigmática, marcada pelo pensamento interseccional e decolonial pôs BLM de 2020. O islão assume assim como identidade de “oprimidos”. Figuras da esquerda radical digital, como o streamer Hasan Piker (culturalmente muçulmano), relativizam ou enquadram positivamente acções de grupos como o Hamas dentro de uma narrativa de “resistência”. Nos Estados Unidos, o candidato democrata ao Senado pelo Michigan, Abdul El-Sayed, de origem muçulmana e perfil progressista, faz campanha publicamente ao lado de Piker, recusando distanciar-se dele. Em Nova Iorque, Zohran Mamdani, socialista democrático e primeiro presidente de câmara muçulmano da cidade, ilustra a mesma intersecção entre esquerda radical/woke, identidade muçulmana e anti-sionismo militante.
Um facto eleitoral reforça o fenómeno: os muçulmanos no Ocidente votam maioritariamente à esquerda, mesmo quando não partilham os valores “tolerantes” da esquerda em matéria de género, sexualidade ou laicismo. A razão é simples e pragmática, a esquerda é sistematicamente pró-imigração e apresenta-se como protectora das minorias face à direita, que associam a islamofobia e xenofobia, com naturalidade zelam pelos seus interesses, não obstante de de acharem abjecto as paradas Gay ou emancipação das mulheres. Um exemplo utilitarista e tácito é da aliança entre o partido comunista de Melenchon e as comunidades islâmicas.
Em Portugal, o fenómeno manifesta-se de forma ainda incipiente e limitada, precisamente porque a comunidade muçulmana continua a ser numericamente residual: estimativas recentes apontam para cerca de 0,4% da população residente, ou seja, aproximadamente 45 mil pessoas, uma das proporções mais baixas da Europa Ocidental. Ainda assim, já se observam pontos de ligação claros entre partidos e sectores da esquerda (PS, Bloco de Esquerda, PCP, Livre) e a defesa da comunidade islâmica, nomeadamente através da oposição frontal a medidas como a proibição da ocultação do rosto em espaços públicos, apresentada como “lei das burcas”, acusando-as de islamofobia, xenofobia e de criar um clima de estigmatização. Esta postura revela a mesma lógica de instrumentalização política vista noutros países europeus: a esquerda apresenta-se como protectora das minorias religiosas e culturais face à “extrema-direita”, transformando uma comunidade pequena num símbolo de resistência ao que classifica como discurso de ódio. No contexto português, porém, o potencial eleitoral real e mais imediato não reside tanto nos muçulmanos, mas sim nos fluxos migratórios bem mais volumosos provenientes do Brasil e dos PALOP. Estes imigrantes, cuja presença cresceu de forma acelerada nos últimos anos, tendem a ver os partidos de esquerda como aliados naturais na defesa de direitos de residência, acesso a serviços públicos e combate ao que percepcionam como xenofobia, criando assim um espaço de convergência ideológica e eleitoral que, embora distinto do islamogauchismo clássico, partilha a mesma estrutura de aliança táctica contra o Ocidente liberal e as forças que privilegiam a soberania nacional e a coesão cultural.

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