Dados recolhidos pela Associação de Familiares e Amigas/os de Vítimas de Femicídio revelam a dimensão deste drama. Entre 2004 e 2018, período em que foram assassinadas 503 mulheres, mais de mil menores ficaram órfãos na sequência de crimes cometidos em contexto familiar, uma média superior a 70 por ano.
E os números continuam a crescer. Segundo um levantamento divulgado pelo Correio da Manhã, desde 2020, pelo menos outros 72 menores ficaram órfãos na sequência de crimes associados à violência doméstica.
Só este ano, até 7 de setembro, a violência doméstica provocou 28 mortes em Portugal: 17 mulheres, seis crianças e cinco homens. Pelo menos dez crianças ficaram órfãs.
Aos quatro anos, perderam as mães
Um dos casos mais dramáticos de 2026 ocorreu a 13 de agosto, no Dafundo, em Oeiras. Uma menina de quatro anos perdeu a mãe, de 33, morta pelo irmão adolescente. O pai dos menores encontra-se preso por violência doméstica.
O jovem, de 15 anos, foi internado num centro educativo em regime fechado. A menina ficou entregue a uma família de acolhimento enquanto a Justiça decide o seu futuro.
Menos de três semanas depois, outra criança de quatro anos perdeu a mãe. O crime ocorreu a 1 de setembro, num hotel em Albufeira, e envolveu um casal britânico. A menina terá presenciado o pai matar a mãe e o seu futuro ficará agora dependente de uma decisão do Tribunal de Família e Menores.
Outros crimes registados este ano em Lisboa, Coimbra, Bragança e Castelo de Vide também deixaram crianças sem as mães.
Os números mostram uma realidade que atravessa os anos: 14 menores ficaram órfãos em 2020, cinco em 2021, 21 em 2022, seis em 2023, dez em 2024 e seis em 2025.
Por detrás das estatísticas ficam crianças obrigadas a viver com as consequências da violência dos adultos. Para algumas, o mesmo crime leva a mãe e coloca o pai na prisão. Perdem, num único momento, muito mais do que um progenitor: perdem a família e a vida que conheciam.