O relógio toca para mais um dia. Um dia, como tantos outros, que ansiamos para que passe a voar, sem existir caos emocional.
Vivemos numa era em que trabalhamos mais, recorremos mais à tecnologia, mas esquecemo-nos do mais importante: nós próprios e quem amamos. A rotina repete-se continuamente, a cada dia que passa, enquanto o corpo começa a dar sinais de que algo não está bem; mas insistimos em não acreditar em cada palpitação, em cada comportamento repetitivo ou noutro sinal qualquer.
Um dia acordamos com o rosto cansado, o corpo já morto, uma alma que empobreceu. Acordamos sem sequer conseguir sair de casa, sem cuidar de nós próprios ou até mesmo sem vontade de fazer o que mais amávamos fazer anteriormente.
O caos instalou-se, o coração acelerou e, do nada, um enorme poço escuro surge na nossa mente. Sentimos que não somos nada ou que quem nos rodeia acha exatamente o mesmo. Sentimos que não conseguimos compreender o tremor de uma mão, de uma perna, ou o facto de alguém questionar tudo isso quando não sabe o que acaba de chegar.
A existência na humanidade resume-se a algo que deixou de fazer grande sentido, pois vivemos numa era em que as tecnologias são vistas como mais importantes do que ajudar quem realmente está no caos. Pensamos em nós próprios, rimos da situação, até sermos nós a estar assim: no fundo do poço, sem saída, sem rodeios.
As mensagens, as chamadas, continuam a dizer sempre a mesma coisa: “Porque estás assim?”, sem aparentemente haver um motivo concreto. Mas houve. Houve falta de autocuidado, falta de impor limites ao que se tenta sobrepor a nós, falta de diálogo ou de algo ainda mais forte que conseguisse preencher os nossos corações. Foi uma recaída que não deveria acontecer, mas aconteceu. Foram planos deixados para trás, sonhos em pausa e objetivos que deixaram de o ser.
O recurso? Talvez fosse o melhor para nós ou o pior para quem nos rodeia. E, do nada, aquele poema que tinha escrito num dos meus livros — que dizia: “A vida é como um cigarro, fuma-se levemente, sopra-se lentamente (…)” — fazia todo o sentido. Sinto-me como um cigarro acabado de fumar: sem chama, sem nada, somente algo que aconteceu e que terminou com o fumo que o vento levou.
Recorri não a um sistema de saúde público empobrecido — que tanto comenta a saúde mental, mas não toma medidas rápidas a fim de trazer uma cura, uma esperança para tantas pessoas. Numa sociedade tecnológica com recursos infinitos, o velho ditado “Tens de ter uma moedinha para o que possa acontecer” tornou-se real. O sistema mais eficiente seria o da moedinha, onde tudo depende do dinheiro para um tratamento, um desabafo ou uma simples requisição para contribuir com a indústria farmacêutica.
A escuridão virou detalhe clínico, “depressão”, gerada por conflitos interiores e exteriores, como se algo que ainda é tabu tivesse acontecido. Do nada, um comprimido para isto e outro para aquilo resolveriam tudo, sem uma conversa, sem uma pausa para beber água ou tomar um café. Essa moedinha serviu de “toma lá, dá cá”. Até quando?
Até quando esta recaída será a última? Até quando o corpo começa a negar o que lhe faz mal? Até quando a dependência de um antidepressivo vira o dia a dia para sobreviver ao caos? Até quando o sistema nacional de saúde é eficaz nesta e em tantas outras doenças, de norte a sul do país? Até quando as pessoas continuam a julgar em vez de simplesmente pensar que nada disto foi por vontade própria?
Até quando deixamos de pensar que somos simplesmente existentes e passamos a ser algo que nem sequer pensamos ser? Até quando? Deixem de julgar e reflitam que isto poderia acontecer a qualquer um de nós — não porque a sua mente é fraca, mas sim porque se cansou.
Até quando até o tabu terminar e decidirmos finalmente combater algo que deixa cada vez mais uma população adoecida, rotulada de “maluca”? Até quando vamos continuar a achar que tudo é pura frescura, que é algo que só acontece aos fracos, em vez de ajudarmos a que nunca aconteça a cada um de nós?
E quando finalmente esse dia chegar, virá a vontade de acordar ao som do relógio, abrindo a janela com o sol a entrar dentro de nós, trazendo todos os sonhos e objetivos esquecidos que começarão a fazer sentido de novo. Tudo será melhor. Mas até lá, enquanto insistirmos em olhar apenas para nós e menos para os outros, nada mudará.