O leitor já deve ter reparado. Assiste a uma manifestação contra o preço das casas e, entre um cartaz sobre rendas incomportáveis e outro sobre salários que não chegam ao fim do mês, aparece uma bandeira da Palestina.
Ninguém parece achar estranho.
Um T1 em Lisboa custa 1.200 euros, uma família não consegue encontrar casa perto do emprego, os jovens adiam a saída de casa dos pais e, de repente, Gaza também entrou no contrato de arrendamento.
Foi mais ou menos isto que voltou a acontecer em outubro. Milhares de pessoas saíram às ruas em Lisboa, Porto, Braga e noutras cidades sob o lema “Não dá mais para viver assim”.
No Porto, a manifestação cruzou-se com um protesto de solidariedade com a Palestina. As bandeiras misturaram-se fraternamente com os cartazes. Em Lisboa também apareceram. Entre as organizações mobilizadas encontravam-se movimentos ligados à habitação, ao antirracismo, ao clima e a várias causas sociais.
Tudo bastante revelador.
Há uma tendência antiga em certos sectores da esquerda para transformar problemas concretos numa espécie de causa geral sobre o estado moral do mundo. Começa-se pela renda. Passa-se para o clima.
Chega-se à Palestina. Pelo caminho entram o racismo, o colonialismo, o género e tudo o mais que esteja disponível no catálogo do sector.
O problema deixa então de ser apenas encontrar uma solução para a habitação, e passa a ser demonstrar que se pertence ao lado moralmente certo da história.
É um fenómeno interessante.
A habitação deveria obrigar-nos a discutir coisas bastante prosaicas.
Quantas casas existem? Quantas pessoas procuram casa? Quanto custa construir? Quanto demora uma licença? Que impostos incidem sobre o arrendamento? Que incentivos tem um proprietário para colocar um imóvel no mercado? Porque razão construir em Lisboa ou no Porto pode demorar anos antes de aparecer o primeiro tijolo?
São perguntas pouco românticas. Não dão fotografias particularmente boas. E nenhuma delas cabe numa bandeira.
Por isso, muitas vezes, são substituídas por linguagem moralista.
O fenómeno não se limita à habitação. Já o vimos no movimento climático. Uma causa inicialmente centrada nas emissões de carbono, na energia e na política ambiental foi progressivamente absorvendo posições sobre Israel, colonialismo, capitalismo e conflitos internacionais. Greta Thunberg tornou-se presença habitual nos protestos pró-palestinianos. E as organizações ambientais passaram a tratar assuntos geopolíticos como extensões naturais da sua missão.
E pergunto-me por que razão tantas causas diferentes acabam sempre politicamente empacotadas. Por que razão cada causa é absorvida pela omnicausa?
A resposta é menos misteriosa do que parece. Um pacote ideológico é mais eficaz do que uma discussão técnica. Se transformarmos uma determinada solução política numa questão de virtude, deixamos de ter de demonstrar que ela funciona. Basta sugerir que quem a contesta está do lado errado.
Ora, a habitação.
Quando as rendas sobem, aparecem imediatamente propostas de controlo de preços, congelamento de rendas, limitações aos despejos e novas restrições aos proprietários.
Se um senhorio concluir que arrendar deixou de compensar, pode retirar a casa do mercado. Se um investidor antecipar que não terá liberdade suficiente para recuperar o capital investido, pode decidir não construir.
Se milhares fizerem o mesmo, a oferta diminui.
E quando há menos casas para o mesmo número de pessoas, os preços não costumam reagir comovidos pela justiça social. Sobem a pique.
E, a somar a tudo isto, a imigração em níveis incomportáveis. Os divórcios. O turismo. Os nómadas digitais.
Aqui aparece uma das curiosidades mais persistentes da política contemporânea. Uma medida é apresentada para corrigir um problema. A medida produz efeitos secundários previsíveis. Esses efeitos agravam o problema. E o agravamento passa a servir de argumento para aplicar uma versão ainda mais intensa da mesma política.
É uma máquina extraordinária, que nunca perde. Se o controlo falha, faltou controlo. Se a intervenção não chega, é porque se interveio pouco. Se o mercado encolhe, a culpa é do mercado.
E é neste ponto que a bandeira palestiniana numa manifestação sobre habitação deixa de ser apenas uma excentricidade visual e passa a funcionar como sinal de pertença.
Não baixa uma renda. Não acelera uma licença camarária. Não transforma um terreno urbanizável numa casa. Não resolve um único despejo.
Mas identifica politicamente o protesto. E percebemos que as questões se tornam pertença de um complexo maior de causas, posições e compromissos, que vão dos (anti-)racismos às islamofobias, do “degrowth” à sexualização das crianças, passando pela falta de casas e pelo anti-capitalismo, claro está. Uma omnicausa que abarca todas as causas possíveis e imaginárias. Excepto as causas maiores da racionalidade e do senso comum.