Lucas Pires, a “figura maior” da direita liberal, foi “liberal antes da política”

Francisco Lucas Pires foi a "figura maior" da direita liberal, sendo "liberal antes da política", e teve um papel "mais importante do que se possa pensar" na construção do regime democrático, defende o autor da sua biografia, hoje apresentada.

© D.R. (imagem da UAL)

“O Lucas Pires não era só um liberal, ou um liberal conservador, no sentido político, mas era-o no sentido pessoal. A liberdade, a sua e a dos outros, foi sempre muito importante para ele. Ele é liberal antes da política”, defendeu à Lusa Nuno Gonçalo Poças, autor de “O Príncipe da Democracia, uma biografia de Francisco Lucas Pires”.Editado pelas Publicações D. Quixote, uma chancela do Grupo Leya, o livro é apresentado hoje na livraria Buchholz, em Lisboa, pelo social-democrata Paulo Rangel e pelo socialista Francisco Assis, assim como por Martinho Lucas Pires, um dos quatro filhos de Francisco Lucas Pires.É essa “capacidade de ver o mundo através dos olhos dos outros”, assinala Nuno Gonçalo Poças, que lhe permitiu, logo enquanto estudante de Coimbra, ser dos poucos que nos grupos de direita radical a que estava ligado conseguia fazer alguma comunicação com os estudantes de esquerda, e é também isso que explica a forte amizade que o uniu a Vital Moreira, que, como ele, seria depois professor na Universidade de Coimbra.O livro conta como ambos fizeram o serviço militar obrigatório nas Caldas da Rainha e se encontravam frequentemente na casa que Lucas Pires alugou com a mulher, a sua antiga aluna Teresa Almeida Garrett, em São Martinho do Porto.

“Vital levava o vinho e as discussões prolongavam-se pela noite fora entre uma das figuras centrais dos comunistas na Assembleia Constituinte e o constitucionalista que tinha materializado e idealizado o projeto de Lei Fundamental apresentado pelo CDS”, lê-se no livro sobre a relação com Vital Moreira, que posteriormente abandonou o PCP e foi deputado independente eleito pelo PS e eurodeputado.

A questão constitucional atravessa todo o percurso de Lucas Pires, desde o parecer que fez a pedido de Diogo Freitas do Amaral para o projeto constitucional dos centristas na Constituinte, que sairia derrotado, com o voto contra do CDS, o único, ao texto aprovado, até às suas teses e trabalhos académicos.

Nuno Gonçalo Poças tinha em Lucas Pires “a referência daquela área da direita liberal”, mas após concluir o trabalho para o livro, fortaleceu a convicção de que foi “uma personalidade aparentemente secundária do regime nestes 50 anos”, mas que “teve um papel mais importante do que se possa pensar”.

“Nas revisões constitucionais, no equilibro do sistema constitucional, nas revisões de 1982 e 1989, na revisão informal que foram a adesão à Comunidade Europeia e à moeda única, nalgum reequilíbrio do sistema político partidário”, sustentou.

“E depois, para o campo da direita liberal não foi uma das figuras, foi a figura maior em Portugal. O próprio PSD de hoje, ou a partir de 1990/91, não seria o mesmo sem o papel dele, este PSD na esfera do PPE, quase inquestionavelmente um partido do centro direita, isso também se deve ao trabalho dele”, defendeu Nuno Gonçalo Poças à Lusa.

O autor considera que Lucas Pires “esteve sempre 20 anos ou mais antes do tempo”, nos “últimos 50 anos, não houve ninguém assim”, o que “em política é um bocadinho fatal”, atribuindo a isso algumas das suas derrotas eleitorais.

O livro inicia com as raízes familiares e o período de estudante e jovem professor em Coimbra, em que pertenceu às iniciativas da direita e da direita radical, como a revista Política, e editora Cidadela e a associação Programa, e termina com a transição e afirmação de uma base liberal, com a sua estada na Alemanha Ocidental, com uma bolsa da Gulbenkian, para estudar na Universidade de Tubingen.

A segunda parte do livro, dividido em quatro, passa pelo “lado direito da revolução”, pelo CDS, e pela sua participação enquanto ministro da Cultura do Governo da Aliança Democrática chefiado por Francisco Pinto Balsemão, e a terceira parte é sobre os seus tempos na presidência do CDS, o “programa para uma sociedade aberta”, saído do chamado Grupo de Ofir, de pendor liberal, até às legislativas de 1985.

É na última parte do livro, dedicada ao período entre 1987 e 1998, ano da sua morte, que se aborda o “tempo de mudança”, a sua desfiliação do CDS, aproximação ao PSD, primeiro enquanto independente, depois como militante (adere durante a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa), até à afirmação como “político-intelectual europeu”.

Todo o percurso é atravessado por essa ideia de que “a luta política nasce da lealdade de reconhecer nos outros a mesma capacidade que se reconhece em nós”, e de isso estar no centro da sua ideia liberal.

“É o próprio espírito liberal da pessoa que dita isso”, resume Nuno Gonçalo Poças.

“O `Pirismo` nunca existiu, precisamente porque ele nunca cultivou a lógica da liderança carismática, embora a tivesse, e esse espírito de claque e de trincheira política. Hoje em dia seria muito difícil alguém ter sucesso nessa lógica”, considerou.

Últimas do País

O entendimento alcançado entre PSD e PS para viabilizar a Prestação Social Única mantém a possibilidade de acesso a apoios sociais sem a exigência de um período mínimo de descontos para a Segurança Social, uma das principais condições defendidas pelo CHEGA.
A PSP fiscalizou quatro agências de viagens nas freguesias lisboetas de Arroios e Santa Maria Maior, após denúncias de cidadãos estrangeiros por pagamento de serviços para obtenção de documentos que se revelaram falsificados, e registou várias contraordenações, foi esta quarta-feira anunciado.
O líder do CHEGA indicou hoje que ainda não chegou a acordo com o PSD para viabilizar a Prestação Social Única e insistiu que o partido "não aceitará" uma proposta que permita o acesso a imigrantes que nunca tenham contribuído.
O dispositivo envolvido no combate ao incêndio que deflagrou na manhã de terça-feira, no concelho de Loulé, continua no terreno com 360 operacionais, apesar de o fogo ter sido dado como dominado às 4h07, disse fonte da Proteção Civil.
O receio de encerramento de colégios de ensino especial levou dezenas de pessoas à porta do Ministério da Educação. Entre os manifestantes estiveram os deputados do CHEGA Maria José Aguiar e Rui Cardoso, que expressaram solidariedade para com as famílias e exigiram uma resposta imediata do Executivo.
A GNR apreendeu na Lota de Aveiro 2.818 quilos de sardinha com tamanho inferior ao que é legalmente permitido, revelou hoje aquela força de segurança, que identificou dois pescadores por infrações na captura e na comercialização do pescado.
As dores lombares foram a principal doença crónica em Portugal em 2025, afetando quase um terço da população, revelou hoje o INE, que apontou ainda o excesso de peso e a hipertensão arterial entre os principais problemas de saúde.
A GNR deteve duas pessoas e apreendeu 147 doses de vários tipos de drogas nas imediações de um festival de música, no Crato, distrito de Portalegre, entre os dias 16 e 17 deste mês, foi hoje divulgado.
Cerca de 50 concelhos dos distritos de Bragança, Vila Real, Guarda, Viseu, Castelo Branco, Santarém e Portalegre estão hoje em perigo máximo de incêndio rural, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).
O Grupo Parlamentar do CHEGA apresentou uma proposta que recomenda ao Governo a alteração das regras de acesso às prestações sociais não contributivas por parte de cidadãos estrangeiros.