Investigador defende fim das manifestações de interesse para imigrantes em Portugal

O investigador Gonçalo Matias defendeu que o Governo deve rever as normas de entrada de imigrantes, com o fim das manifestações de interesse, e propõe um sistema semelhante ao que é já praticado no Canadá ou Alemanha.

© D.R.

“Portugal está a viver na minha opinião, não uma crise de imigração, mas uma crise da política de imigração e das instituições que lidam com a imigração”, porque os números de imigrantes no país estão “perfeitamente dentro da normalidade europeia”, afirmou à Lusa Gonçalo Matias, que foi secretário de Estado para o setor no governo PSD/CDS em 2015, que durou apenas 27 dias.

“Para mim, o grande problema para além do colapso das instituições e da incapacidade de resposta, o grande problema na lei tem a ver com as chamadas manifestações de interesse”, um recurso jurídico que quem chega pode requerer, mesmo com visto de turismo.

Nessa manifestação de interesse, os imigrantes podem referir que estão à procura de trabalho e é esse recurso que está a motivar o grande afluxo de processos nas autoridades portuguesas.

“A manifestação de interesse permitiu que muitas pessoas entrassem em Portugal, algumas delas sem documentação adequada, com processos que estão mal instruídos”, o que veio “também facilitar o trabalho de redes de clandestinas de tráfico que conseguem aproveitar estas lacunas na lei para trazer pessoas de forma ilegal e aproveitar-se da sua vulnerabilidade”, explicou.

Sem incluir os casos que falta regularizar, Portugal tem 800 mil imigrantes e “isso, em termos comparados europeus, não é muito elevado”, afirmou o professor universitário.

No seu entender, o fim anunciado do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) demorou muito a ser concretizado e assistiu-se a uma “transferência muito demorada” para a nova organização que regula a entrada de imigrantes, a Agência para a Integrações, Migrações e Asilo (AIMA): “isto levou a que as nossas Instituições tivessem colapsado e não tivessem conseguido lidar com o aumento da imigração que fomos verificando ao longo dos últimos anos”.

Atualmente, o país tem 400 mil processos pendentes, o que “coloca um problema sério ao país. Em primeiro lugar, no que respeita à dignidade dos imigrantes que nos procuram, que ficam num limbo jurídico e sem proteção de direitos e, por outro lado, pondo em risco a própria a perceção de segurança por parte dos cidadãos portugueses”, afirmou o docente da Universidade Católica.

O especialista não defende quotas, mas outras soluções para o recrutamento de mão-de-obra estrangeira.

“Portugal precisa muito de trabalhadores”, disse, Gonçalo Matias, dando o exemplo do turismo ou do setor agrícola. Mas isso só é possível com “um sistema migratório a funcionar, controlado e regulado”.

Em primeiro lugar, defendeu que se deve acabar com as pendências dos processos em tempo útil e depois seguir os exemplos internacionais como “o sistema de pontos do Canadá, que foi agora replicado pela Alemanha para os trabalhadores qualificados”. Este modelo avalia o currículo de cada candidato a imigrante e autoriza a entrada mediantes as necessidades do país.

“Isto não tem nada a ver com quotas, não impõe limites numéricos, mas identifica as áreas em que há mais necessidades e anuncia essas áreas”, explicou.

A prazo, o investigador pede um consenso nacional sobre esta matéria, tendo em conta a crise demográfica e o défice demográfico do país, com um “sistema humanista que funcione”.

Hoje em dia, em Portugal, assiste-se ao discurso anti-imigrantes e xenófobo, mas Gonçalo Matias referiu que essa situação resulta de tendências globais, “porque o tema estava no topo da agenda política noutros países” e houve “algum contágio”.

A isso somou-se “o aumento grande do número de imigrantes” e tornou-se visível para a opinião pública.

No entanto, trata-se de um tema que deve ser tratado “com rigor, sobretudo de um ponto de vista factual e não alimentar medos que são infundados” ou “mitos que não têm razões de ser”, acrescentou.

Últimas do País

Cerca de 20 mil clientes continuam sem serviços fixos de comunicações, três meses depois de a depressão Kristin ter atingido o país, revelou à agência Lusa a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom).
Portugal, Espanha e outros países do sul da Europa consolidaram-se como destinos preferidos dos europeus para viajar na primavera e no verão deste ano, com um aumento conjunto de 17% na procura face a 2025.
O coordenador da Estrutura de Missão Reconstrução da Região Centro do País disse à agência Lusa que a reposição total dos serviços de comunicações fixos, afetados na sequência do mau tempo, pode ocorrer até ao verão.
A Guarda Nacional Republicana (GNR) anunciou esta sexta-feira ter detido, no concelho de Porto de Mós, dois jovens suspeitos de tráfico de droga, tendo apreendido, além de produto estupefaciente, armas.
Quase três meses depois da depressão Kristin, cerca de 20% da população do município de Figueiró dos Vinhos, no norte do distrito de Leiria, continua sem acesso à internet e a televisão, segundo o presidente da Câmara.
Dois autarcas do concelho de Leiria manifestaram à agência Lusa preocupação pela existência de idosos impossibilitados de pedir socorro em caso de necessidade devido ao atraso na reposição das comunicações fixas na sequência do mau tempo.
As comunidades intermunicipais (CIM) da Região de Leiria, Região de Coimbra e Médio Tejo pediram ao Governo o prolongamento das medidas de apoio lançadas para compensar os estragos provocados pela depressão Kristin.
O técnico de sangue detido na quarta-feira por suspeitas de crimes de peculato, corrupção de substâncias e/ou propagação de doença foi hoje proibido pelo tribunal de entrar em Coimbra e suspenso de funções, anunciou a Polícia Judiciária (PJ).
A Polícia Judiciária (PJ) de Braga apreendeu uma tonelada de cocaína que entrou em Portugal por via marítima, dissimulada em contentores entre centenas de sacos de açúcar de 50 quilos, foi esta sexta-feira anunciado.
A PSP deteve este ano quase 2.000 condutores com excesso de álcool e multou outros 1.320 pelo mesmo motivo, anunciou hoje a polícia, alertando para os riscos acrescidos da condução sob a influência do álcool.