Quando salvar vidas se torna um risco: é urgente proteger quem cuida

A violência contra profissionais de saúde é uma realidade crónica e intolerável, presente nas urgências, enfermarias e unidades de cuidados de saúde primários. A recente agressão a dois enfermeiros no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, é mais um episódio de violência que reflete a falência de um sistema que continua a falhar aos que o suportam. Proteger quem cuida é proteger o SNS, um compromisso que exige ação imediata, sem hesitações nem desculpas institucionais.

A Lei n.º 26/2025, de 18 de abril, foi um avanço necessário: qualificou estas agressões como crime público e agravou as penas, excluindo a substituição por multa. O Despacho n.º 2102/2020, de 13 de fevereiro, criou o Gabinete de Segurança para a Prevenção e o Combate à Violência contra os Profissionais de Saúde, articulando-se com programas nacionais de prevenção. No entanto, a sua eficácia é limitada pela escassa aplicação prática, subfinanciamento crónico e ausência de responsabilização institucional.

O CHEGA no seu programa eleitoral 2025, apresenta uma resposta firme: presença permanente de forças de segurança nas urgências, auditorias externas aos protocolos de segurança, equipas móveis de apoio psicológico e jurídico, subsídio de risco, reconhecimento legal do desgaste rápido e revisão das condições de aposentação. Propõe ainda incentivos salariais e majorações no tempo de serviço para quem trabalha em unidades de maior exposição à violência – medidas justas, sustentáveis e urgentes.

Em 2023, os enfermeiros foram o grupo mais atingido, com 35% das 1.036 notificações. A maioria dos casos é de violência psicológica (67%, segundo o INQSEG21) e muitos continuam por denunciar, num ambiente marcado pelo medo, cansaço e silêncio institucional.

Legislar não basta. É preciso vontade política, firmeza e ação. A violência não é inevitável – é um problema evitável. É tempo de uma resposta à altura da dignidade de quem todos os dias salva-vidas.

Artigos do mesmo autor

Neste tema, a confusão tem servido muitas vezes para fugir ao essencial. Uns falam como se fosse legítimo recusar cuidados urgentes a estrangeiros não residentes. Outros falam como se tratar implicasse abdicar de cobrar. Nenhuma destas posições resolve o problema. Em contexto urgente ou emergente, o dever do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é responder. […]

Escrevo como deputada do CHEGA, mas também como enfermeira especialista em saúde infantil e pediátrica. Talvez por isso me custe particularmente ver este tema arrastado para o ruído ideológico da guerra cultural do momento. Quando se fala de bloqueadores da puberdade e de terapias hormonais em menores com disforia de género, fala-se de crianças e […]

O debate sobre o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde deve assentar em factos. E há um documento incontornável para esse debate: o Estudo sobre as Unidades Locais de Saúde (ULS) – 2025, da Entidade Reguladora da Saúde (ERS). Trata-se de uma análise ao funcionamento das 39 ULS de Portugal continental, na sequência da […]

Portugal atingiu, em 2024, uma esperança de vida de 82,7 anos, cerca de um ano acima da média da União Europeia. Este resultado honra décadas de construção do sistema de saúde português e o trabalho dos profissionais de saúde que continuam a sustentar a resposta mesmo sob pressão. Mas seria um erro confundir um bom […]

Há um momento em que insistir nos mesmos instrumentos deixa de ser gestão e passa a ser negação. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) atingiu esse ponto de não retorno. Hoje, o Estado continua a produzir relatórios, despachos e planos sazonais como se o sistema possuísse ainda alguma margem de manobra, quando a realidade no […]