Falta de médicos e enfermeiros ensombra o 46º aniversário do SNS

O SNS tem mais de 150 mil trabalhadores, mas os bastonários dos médicos e enfermeiros elencam a falta de profissionais como um constrangimento do serviço público que já gasta cerca de 15 mil milhões de euros anualmente.

© D.R.

“O problema principal é a falta de recursos humanos, nomeadamente, de médicos, de enfermeiros, de psicólogos, de técnicos, de uma série de outras profissões”, salientou à Lusa o bastonário da Ordem dos Médicos (OM).

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi criado em 1979, através da lei 56/79 de 15 de setembro, prevendo que o acesso aos cuidados de saúde públicos fosse garantido a todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica e social.

Mais de quatro décadas depois, Carlos Cortes considera que o SNS vive uma “das maiores crises” da sua história por não ter sabido se adaptar a uma medicina preventiva e às novas tecnologias na área da saúde, mas também a uma sociedade que agora “vive durante mais anos com doenças, portanto, com mais doentes crónicos”.

“Estamos fundamentalmente focados, obviamente que é importante na parte curativa, em curar e tratar as doenças, mas fazemos muito pouco para evitar que essas doenças aconteçam”, alerta o bastonário.

“Um hospital hoje funciona como funcionava quando o SNS foi criado em 1979”, realça ainda Carlos Cortes, para quem este serviço público é atualmente “uma grande urgência no país”, o que faz com que Portugal seja um dos países que “tem mais consumo deste tipo de cuidados”.

A falta de profissionais, devido à incapacidade de atração e de retenção do SNS, é apontada pelo responsável da OM como uma das causas para as dificuldades de acesso dos utentes.

Estão inscritos na ordem perto de 55 mil médicos em idade ativa, mas estão atualmente nas unidades de saúde públicas pouco mais de 30 mil clínicos, adiantou Carlos Cortes, que não tem dúvidas que, se forem tomadas medidas que valorizem a carreira e que agilizem o modelo de gestão hospitalar, os médicos vão escolher ficar no SNS.

Já para o bastonário da Ordem dos Enfermeiros (OE), 46 anos depois de ter sido criado, o SNS “dá respostas com muitas fragilidades”, também em resultado da instabilidade na implementação de reformas para o setor.

“Nos últimos 10 anos, nós tivemos cinco ministros da Saúde e esta instabilidade dificulta, de facto, qualquer que seja a reforma que se pretenda instituir”, lamenta Luís Filipe Barreira em declarações à Lusa.

Perante isso, o bastonário defende um “pacto governativo” entre os principais partidos que “possa ir além destes ciclos políticos, que muitas vezes são curtos” em Portugal.

Luís Filipe Barreira considera ainda ser “impensável” que os planos de desenvolvimento e orçamento das ULS “ainda não tenham sido aprovados”, o que dificulta as contratações de profissionais pelas unidades de saúde.

“Nesta fase que Portugal passa por uma escassez brutal de enfermeiros e que tivemos perto de três mil enfermeiros que acabaram agora a sua licenciatura, não tem havido a abertura de concursos para poderem entrar para as instituições e isto leva a que muitos procurem a emigração”, lamenta.

Luís Filipe Barreira adianta que, segundo um relatório do próprio ministério, o SNS precisava de mais 14 mil enfermeiros e que, nas visitas de acompanhamento do exercício profissional, a OE constatou que “há instituições e serviços que têm metade do número de enfermeiros que deviam ter”.

Dados oficiais indicam que trabalham no SNS mais de 154 mil profissionais, dos quais 52 mil médicos e 32 mil médicos, incluindo os internos em formação, mais cerca de 20 mil do que há cinco anos.

Apesar do aumento do número de profissionais de saúde, em algumas áreas ainda são insuficientes para dar resposta atempada aos utentes, como a medicina geral e família, em que 1.516.528 utentes não tinham médico de família atribuído em agosto.

Além disso, a prestação de cuidados de saúde aos utentes está, em parte, dependente do trabalho extraordinário assegurado por várias classes profissionais, o que obrigou as unidades do SNS a gastaram 465 milhões de euros com o pagamento de 17,9 milhões de horas de trabalho suplementar em 2024.

Para colmatar a falta de especialistas nos hospitais, no último ano verificou-se um crescimento de 3,6% no total de horas contratadas de médicos chamados “tarefeiros”, correspondendo uma despesa de quase 230 milhões de euros, mais 11,7% do que em 2023.

Segundo o Conselho das Finanças Públicas, o SNS registou em 2024 um défice de cerca de 1.377 milhões de euros e uma despesa de 15.553 milhões de euros, um aumento de 9,1% face ao ano anterior.

A despesa do SNS corresponde já a 5,5% do produto interno bruto (PIB) e a 12,8% da despesa pública total do país.

Apesar dos desafios que enfrenta atualmente, o Serviço Nacional de Saúde “não foi só uma grande conquista da democracia, mas foi também um fator muito importante de coesão social”, salienta Carlos Cortes.

Últimas do País

A PSP apreendeu, na quinta-feira, em Matosinhos, no distrito do Porto cerca de 450 artigos furtados de grandes superfícies e 750 comprimidos, tendo sido um homem constituído, foi hoje anunciado.
A maioria dos alunos inscritos no primeiro dia da época especial dos exames do ensino secundário faltou à prova, segundo dados divulgados hoje pelo Ministério da Educação.
Os nove chefes de equipa da urgência pediátrica do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, apresentaram na quinta-feira a demissão dos cargos, alegando constrangimentos com a anestesiologia, confirmou hoje a Unidade Local de Saúde (ULS) São José.
Quem espera por um médico de família não encontra grandes motivos para otimismo no plano do Governo para os próximos três anos. O SNS prevê manter em 85,37% a percentagem de utentes com médico atribuído em 2026, 2027 e 2028, exatamente o mesmo nível registado em 2024.
Dez das mais recentes viaturas ligeiras da GNR destinadas ao combate aos fogos foram mandadas encostar. As alterações feitas às Toyota Hilux, incluindo depósitos de 400 litros de água e motobombas, não foram averbadas no Documento Único Automóvel e os veículos arriscavam chumbar na inspeção.
Denúncia anónima de 17 páginas aponta alegadas “ofensas, berros, ameaça, perseguições e ilegalidade” e chegou a Aguiar-Branco através de deputados do PS. Presidente da Assembleia da República mandou abrir um inquérito, mas o processo acabou arquivado sem que o visado ou a própria Secretária-Geral tivessem sido ouvidos.
Desemprego entre os jovens até aos 24 anos atinge os 20,1%, muito acima dos 15,1% da média europeia. São já 76 mil jovens ativos sem trabalho.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses alertou hoje que os utentes do SNS podem esperar meio ano para terem a primeira consulta com um psicólogo e que o reforço de profissionais nos centros de saúde e nas escolas é insuficiente.
O primeiro-ministro soma pelo menos 81 dias no estrangeiro desde que chegou a São Bento. Só em 2025 foram documentados 38 dias fora do país e, em 2026, já vão pelo menos 24 até ao início de setembro.
O procurador-geral da República (PGR), Amadeu Guerra, revelou hoje que estão em curso três inquéritos, um processo no Tribunal de Contas e uma investigação de natureza administrativa sobre casos que envolvem o ministro Luís Neves.