Liga diz que descida de casos de cancro em 2022 resulta de atrasos da pandemia e que números vão aumentar

O presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) afirmou hoje que a descida de casos de cancro em 2022 reflete uma normalização estatística, após os atrasos nos diagnósticos provocados pela pandemia, alertando que a tendência é de aumento.

© facebook/ipolisboa

Os dados do Registo Oncológico Nacional (RON), hoje divulgados, indicam que em 2022 foram registados 60.954 novos casos de cancro em Portugal, correspondendo a uma taxa de incidência de 579,6 casos por 100 mil habitantes.

“Os resultados mostram que após as alterações provocadas pela pandemia de covid-19, a incidência em 2022 diminuiu e aproximou-se dos valores observados em 2019. Mantiveram, no entanto, uma tendência crescente o cancro do cólon e o melanoma maligno em ambos os sexos, bem como os cancros do reto e do rim nos homens”, disse à agência Lusa a coordenadora do RON, Maria José Bento.

Comentando estes dados à agência Lusa, o presidente da LPCC, Vítor Veloso, explicou que provavelmente há menos casos porque houve uma “aglomeração de casos” devido à falta de registos atempados.

“Portanto, este número inferior de casos não quer dizer que o cancro tenha diminuído de incidência”, vincou o oncologista. Salientando que, a partir de agora, os números representam o valor real, com tendência para aumentar.

Vitor Veloso apontou que o aumento de alguns tipos de cancro, em particular do cólon e reto, está relacionado com hábitos de vida pouco saudáveis, como alimentação inadequada, sedentarismo e consumo de álcool e tabaco além de um “sem número de fatores” que podem contribuir para o aparecimento deste tumor.

Apontou também “a ineficiência do rastreio do cólon e reto”, que disse “funcionar muito mal, ao ralenti, sem estrutura adequada nem adesão suficiente”.

“Lesões que eventualmente seriam pré-malignas e que seriam diagnosticadas atempadamente, devido à falta de rastreio não são detetadas e vão continuar a existir e vão promover cancros, o que não aconteceria se houvesse um rastreio devidamente adequado”, defendeu.

Uma situação que disse não acontecer, por exemplo, com o rastreio do cancro da mama, a cargo da LPCC, que funciona “bastante bem” e serve de exemplo de eficácia na deteção precoce.

Relativamente à maior incidência da doença nos homens, Vítor Veloso atribuiu o fenómeno à menor procura de cuidados médicos e à prevalência de hábitos alcoólicos e tabágicos mais visíveis no sexo masculino.

“O homem tem muito mais displicência em ir ao médico e normalmente ignora os sintomas, a mulher é mais cuidadosa”, comentou.

O presidente da LPCC sublinhou a importância de campanhas de sensibilização para incentivar a população a aderir aos rastreios, salientando que apenas através da informação e da educação é possível atingir uma adesão adequada, entre 60% e 70%.

Face ao envelhecimento da população e à escassez de profissionais de saúde, o responsável alertou para a incapacidade do Serviço Nacional de Saúde em responder à crescente procura, defendendo que o SNS tem de sofrer “uma reestruturação adequada, profunda” para dar reposta às necessidades da população.

De acordo com um resumo do RON a que a Lusa teve acesso, os tumores mais frequentemente diagnosticados em 2022 foram os da mama, colorretal, próstata, pulmão e pele não-melanoma.

O grupo etário dos 80 aos 84 anos apresentou a taxa de incidência mais elevada, com 1.645 casos por 100 mil habitantes.

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