Falta de rede de rebocadores de salvamento contraria vocação marítima do país

A falta de uma rede de rebocadores de salvamento e emergência em Portugal, ao contrário do que sucede em Espanha, contraria a vocação marítima do país, disse hoje o vice-presidente da comunidade portuária da Figueira da Foz.

© D.R.

“São milhares, e eu não estou a exagerar, os navios mercantes que demandam Portugal, são por aí 4.000 navios ou mais que vêm a Portugal todos os anos, é um número imenso”, notou Paulo Mariano.

Em declarações à agência Lusa, o também proprietário de uma empresa de operação portuária e de uma agência marítima, defendeu que um país “que se diz ‘atlantista’ e que foi uma potência” no mar, devia possuir rebocadores de salvamento estatais.

“Devia ser o Estado, como em Espanha. O Estado espanhol tem uma empresa que tem quatro rebocadores de alto mar, somente para salvamentos. Portugal, se tivesse um ou dois, ficava-lhe muito bem e podia prestar um bom serviço à navegação que por aqui passa”, argumentou.

Na conversa com a Lusa, com base na situação do cargueiro Eikborg – que ficou sem leme e à deriva, na segunda-feira, alegadamente depois de ter batido no fundo, à saída da barra da Figueira da Foz, devido à acumulação de areias no local – Paulo Mariano frisou que, sem meios de socorro marítimo, Portugal transmite uma imagem de insegurança aos maiores armadores europeus, como é o caso da Royal Wagenborg, proprietária do navio avariado, que possui 160 navios de carga e 3.000 colaboradores.

A questão da falta de rebocadores de salvamento já tinha sido abordada na segunda-feira por Luís Távora, diretor operacional da empresa de transportes e reboques marítimos Tinita, de Viana do Castelo, que lamentou a inexistência de um organismo estatal com essa função.

“Aqui há muitos anos, há mais de 20 anos, falou-se nisso, de poder existir um rebocador, um a norte e outro a sul, dividia-se o país a meio. Mas como sempre, aqui na nossa terra, isto nunca passa do papel”, enfatizou.

Depois de esgotarem os contactos com eventuais rebocadores privados em Portugal, o armador neerlandês e o dono da carga que o navio, com seis tripulantes, transporta – 3.300 toneladas de pasta de papel, oriundas da celulose Celbi do grupo Altri – acabaram hoje por contratualizar o serviço, por 350 mil euros por dia, com um rebocador oceânico norueguês.

Esta ajuda deverá chegar ao local onde o Eikborg se encontra (entre os 40 a 50 quilómetros da costa, a oeste/noroeste da Figueira da Foz) entre o final da noite de hoje e o início da madrugada de quarta-feira.

O rebocador em causa é o Skandi Lifter, um navio oceânico de grande potência com 90 metros de comprimento (um metro maior do que o cargueiro que irá assistir) por 23 metros de largura, podendo acomodar até 70 pessoas. Construído em 2009, o navio é propriedade do grupo norueguês DOF e usado, principalmente, para rebocar plataformas móveis de perfuração petrolífera e turbinas eólicas.

Pelas 14:00 de hoje, segundo o portal Marine Traffic, o Skandi Lifter estava a navegar no Atlântico, ao largo da costa oeste da Galiza, em direção a sul.

Paulo Mariano explicou que o serviço do rebocador norueguês “será complicadíssimo” e que a operação irá “demorar vários dias”, face às condições do mar no local, com ondas entre os seis e os sete metros, e também a situação do cargueiro, que possui uma maneabilidade limitada por estar sem leme, deslocando-se de marcha à ré, a cerca de dois quilómetros por hora.

O destino final do navio avariado deverá ser um porto espanhol, presumivelmente na baía de Vigo, na Galiza, norte de Espanha, decisão que estará dependente da agitação marítima prevista para os próximos dias, afirmou.

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