Centenas de voluntários unidos para limpar e reerguer Leiria

Carregados de pás, vassouras e sacos do lixo, centenas de voluntários juntaram-se hoje em Leiria, junto ao estádio municipal, para limpar e reerguer este concelho da região Centro, bastante afetado pela depressão Kristin, contando com pessoas de todo o país.

© Thomas Cabral | AFP

Tentar apanhar os cacos. Na verdade, a cidade está em cacos”, afirmou Paulo Ferreira, enquanto ajuda a limpar o concelho de Leiria, onde nasceu e onde vive há 60 anos. O leiriense contou que “graças a Deus” a sua casa não foi afetada, mas há pessoas que “dentro de casa ficou tudo destruído”, porque as janelas implodiram, o vento entrou e estragou tudo.

Concentrados junto ao Estádio Municipal Dr. Magalhães Pessoa, onde no meio da destruição resta intacta uma lona do União de Leiria, em que se lê também “mais do que futebol”, os voluntários distribuíram-se em grupos para limpar o concelho de Leiria, com 20 freguesias, onde vivem mais de 130 mil pessoas.

A coordenar a ação de voluntariado, o vereador da Proteção Civil da Câmara de Leiria, Luís Lopes, realçou a participação de “à volta de 600 pessoas”, vindas de todo o país, respondendo ao apelo que foi feito na sexta-feira pelo município para ajudarem a limpar o concelho, em particular o percurso Polis junto ao rio Lis.

O autarca Luís Lopes ressalvou que os voluntários não vão limpar o estádio municipal, até porque o espaço “não é seguro para que as pessoas permaneçam sem proteção”. A ação incide na recolha de resíduos espalhados pelo concelho, desde entulho de infraestruturas danificadas a resíduos verdes de árvores derrubadas, que têm sido depositados no parque de estacionamento junto ao estádio.

Patrícia Pinto deslocou-se do Porto, acompanhada do pai e da mãe, para ajudar a reerguer Leiria. “Vimos a publicação no Instagram a anunciarem para estar aqui às 10:00 para ajudar e bastou isso para virmos. A empresa do meu pai também ajudou, forneceu a carrinha, casacos, luvas, então viemos”, contou à agência Lusa.

A portuense descreveu o cenário do concelho como “um caos” e realçou que os leirienses “têm mesmo muito, muito trabalho”, defendendo que “toda a ajuda é bem-vinda”.

“Variámos a rua, colocávamos em sacos e, depois, algumas pessoas colocavam na carrinha e o meu pai trazia para baixo para colocar nos contentores, que depois fazem a separação”, indicou, considerando que “é assustador” a quantidade de coisas que ainda há por limpar em Leiria.

No meio de um grupo de escuteiros, Pedro Pinto veio de Sintra, distrito de Lisboa, para apoiar os leirienses a limpar o concelho.

“Óbvio que fiquei surpreendido. Nunca estamos à espera de ver os estragos. Sabemos que há estragos, mas nunca sabemos qual é a dimensão real. Olhamos para a frente e vemos os telhados todos desfeitos, vemos as estradas todas sujas de árvores e de estragos dos telhados, das paredes, dos vidros, e ver também os postes de informação todos caídos é sempre preocupante”, disse.

A viver em Leiria há cinco anos, depois de ter saído de Lisboa, Sandra Viagem e o filho também se juntaram ao grupo de voluntários, apesar de terem registado danos na sua casa, com as janelas partidas.

“Não podemos ficar parados em casa esperando que as coisas aconteçam. Vamos fazer aquilo que podemos e é isso que eu fiz. Eu ainda tenho as janelas danificadas, mas vim cá limpar Leiria primeiro, porque acho que isso é prioridade”, expressou.

Com queda de estruturas, árvores arrancadas pela raiz, viaturas danificas e coberturas de habitações destelhadas, “é muito triste ver Leiria neste estado”, desabou Sandra Viagem, acrescentando que é “como se houvesse uma guerra, que a cidade ficou completamente destruída, está irreconhecível”.

O leiriense Paulo Ferreira perspetivou que o reerguer do concelho de Leiria vai demorar “dois, três anos”, com a reparação de estragos, ressalvando que também depende muito da ajuda que for disponibilizada à região, inclusive sensibilizando a comunidade internacional.

“Foram dias muito difíceis”, avançou Paulo Ferreira, relatando a falta de luz, água e comunicações, que fez lembrar “como se vivia há não sei quantos anos” e valorizar o que a sociedade de hoje dispõe.

Recusando ser “tão catastrofista”, o leiriense afirmou que agora é preciso “resiliência, tenacidade, olhar para o futuro e construir outra vez, e, se possível, construir melhor do que o que já estava”, para antever que catástrofes naturais como esta podem voltar a acontecer.

A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, deixou um rasto de destruição, causando pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho.

Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais do temporal.

Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.

O Governo decretou situação de calamidade entre as 00:00 de quarta-feira até às 23:59 de dia 01 de fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.

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