Há coisas que só percebemos quando falham. A eletricidade, a água, a internet. E o cuidado ou o cuidar… É exatamente isso que está a acontecer no Serviço Nacional de Saúde (SNS): discute-se compra de macas e ambulâncias, contratação de camas, construção de hospitais, inicio de obras, mas esquece-se o essencial — quem é que garante o cuidado, minuto a minuto, de forma contínua e segura, quem é que garante a alimentação, o banho e a dignidade humana? E aí não há como fugir ao óbvio: sem profissionais de saúde, nomeadamente, enfermeiros e Técnicos Auxiliares de Saúde (TAS), não há SNS, não cuidado, não há humanização. Mas, há edifícios. Há equipamentos. Há anúncios. Mas depois, não há resposta!
Há um hábito perigoso dos governos sucessivos em Portugal quando falamos de saúde: discutimos lucros, números, edifícios e promessas como se isso, por si só, tratasse as pessoas. A propaganda política em “abrir camas”, em “reforçar meios”, em “comprar ambulâncias”, em “novos planos” para responder às crises, soa muito bem, mas a verdade é que isso não chega para tratar e cuidar a população.
Mas há uma equação que deveria estar sempre no centro, por parte de quem está no governo: “o utente”. Este foco, vem desmontar todo o espetáculo político: com tantos anúncios de compras, quem é que vai estar ao lado do doente, quando a porta se fecha e é necessário mudar uma fralda? Porque uma cama não cuida. Uma ambulância não decide. E um serviço não funciona sozinho ou por decreto. Funciona com gente suficiente, com profissionais de saúde preparados e com condições para trabalhar.
É aqui que entram os enfermeiros e os TAS — não como categorias profissionais “importantes”, mas como o alicerce que mantém o cuidado direto e a saúde de uma comunidade. São eles que garantem continuidade, segurança e humanidade, não só quando há grandes emergências, mas sobretudo na vida real: na vigilância diária, na prevenção, no acompanhamento, na reabilitação, na educação para a saúde, na higiene, na alimentação. A maioria das pessoas só percebe isto quando precisa. Quando nasce um filho e tudo é novo e assustador. Quando um pai envelhece e começa a cair, a esquecer-se, a perder autonomia. Quando uma ferida não cicatriza. Quando a respiração falha. Quando a ansiedade engole. Quando a dor se torna rotina. E, no fim, quando já não há cura — só dignidade e conforto! Quem cuida das pessoas quando nascem e quando morrem?
A verdade é que, sem enfermeiros em número suficiente, nada do resto se sustenta. A conversa sobre “mais camas” é vazia se não houver quem faça a triagem, a vigilância, a medicação, a monitorização e a intervenção atempada. Segundo a Ordem dos Enfermeiros, na zona de Lisboa e Vale do Tejo (LVT), existem cerca de 350 camas fechadas por falta de enfermeiros. E o mesmo vale para ambulâncias, das 16 ambulâncias em LVT, apenas 6 estão operacionais, por falta de Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar: pode-se comprar o veículo, fazer a fotografia para a imprensa e para os portugueses— mas sem profissionais disponíveis e sem condições que fixem quem está no terreno, o socorro e o cuidado é uma mera ilusão. O país pode investir em objetos e infraestrutura, mas se não investir em pessoas, ficamos com um SNS cada vez maior e mais “caro” de sustentar, mas que na prática não dá a resposta adequada às pessoas – ou seja, ineficiente e ineficaz!
Quando faltam enfermeiros, tudo começa a ceder: o tempo para estar junto ao doente encolhe, o tempo para ensinar vai desaparecendo, as pequenas alterações de saúde passam despercebidas e os milagres começam a acontecer, graças ao cansaço dos profissionais. O risco sobe. Os erros tornam-se mais prováveis. O cuidado torna-se automático, defensivo, mecânico. E quem paga não é apenas “o sistema” — são os doentes, as famílias, as comunidades e os próprios profissionais de saúde. Porque uma comunidade não é saudável quando tem hospitais cheios; é saudável quando consegue evitar chegar lá, ou quando, chegam lá, são tratadas com tempo, humanidade, competência e respeito.
O problema é que se está a empurrar a Enfermagem e os TAS para um modelo de desgaste permanente, de penosidade diária. Horários longos, turnos caóticos, famílias preocupadas, escalas imprevisíveis, turnos que não acabam quando o corpo pede para parar. E depois vêm a declarações a público, da Senhora Ministra da Saúde- Ana Paula Martins, que confia nos profissionais de saúde do SNS, o problema é que os profissionais de saúde, já não têm esperança nos governos e o esforço chega a um ponto, que se torna finito e a exaustão tem consequências. Um enfermeiro exausto não é apenas alguém cansado: é alguém com menos margem para perceber o detalhe, menos tempo para prevenir a complicação, menos capacidade para agir, porque no fundo somos “gente que cuida de gente”.
Por isso, o país precisa de parar de fingir que resolve crises com anúncios. A solução não é abrir mais camas se as existentes já não têm equipa suficiente. A solução não é comprar mais ambulâncias se não houver profissionais em número adequado para socorrer quem precisa e condições dignas para cuidar de quem está a partir.
O que faz falta é mais simples — e mais exigente: reforçar equipas, melhorar condições, valorizar de forma séria, e assim manter os profissionais de saúde no SNS.
No fundo, esta discussão devia ser óbvia. Um país mede-se pela forma como trata quem nasce, quem adoece, quem envelhece e quem morre. E, nesses quatro momentos, há sempre alguém por perto a vigiar, a explicar, a aliviar, a proteger ou simplesmente a dar a mão, para que ninguém tenha medo de morrer sozinho.