“O Estado Sem Vigilância: Pequeno Tratado Sobre a Tentação Absoluta e o Despacho Irresponsável”

Há decisões governamentais que entram na História pela porta principal, outras escapam pela porta do cavalo e evaporam-se na chaminé do ridículo, onde a recente posição do Ministro Adjunto e para a Reforma do Estado, Gonçalo Matias, sobre o Tribunal de Contas deixar de se “substituir à administração” exala o perfume da modernidade administrativa, com inequívocas notas de ingenuidade institucional.
Diz Sua Excelência que a fiscalização prévia gera desconfiança e paralisa decisões, ora, como advertia Montesquieu, “todo aquele que tem poder é levado a abusar dele, vai até onde encontra limites”, logo a solução proposta parece ser simples, remover os limites e confiar na bondade intrínseca do decisor público, uma tese quase pastoral, digna de Jean-Jacques Rousseau, não fosse o detalhe de que o contrato social português tem sido, demasiadas vezes, redigido a tinta invisível e rasgado à primeira nulidade processual.

Argumenta-se que o visto prévio demora 30 dias e que o atraso do País se mede ao cronómetro do Tribunal, mas esquece-se que existe aprovação tácita, na ausência de resposta, e que os verdadeiros atrasos residem, não no controlo, mas na insuficiência técnica de muitos procedimentos, concursos mal instruídos, cadernos de encargos indigentes, projectos sem revisão rigorosa, lotes ignorados quando a lei os prevê para proteger a concorrência e o erário, em resumo , o Código dos Contratos Públicos não foi escrito para ornamentar estantes, mas para evitar milhões em “trabalhos a mais” que surgem, invariavelmente, como cogumelos depois da chuva.
Sem controlo prévio robusto, o Estado arrisca-se a celebrar contratos frágeis, documentalmente anémicos, incapazes de sustentar-se em tribunal quando o adjudicatário invocar direitos e compensações e então pergunta-se: como se pagarão os trabalhos a mais? Com fé? Com latinismos? Com conferências de imprensa? O contencioso multiplicar-se-á e o Estado, mal instruído, perderá por defeito de prova, onde a fragilidade não será teórica, será orçamental.

O argumento central é sedutor na sua candura, deixem governar, porque se houver ilegalidade, pune-se depois, ou seja depois, sempre depois, depois de evaporado o Erário Público, abre-se inquérito, depois de prescritos os crimes, convoca-se indignação televisiva, ou seja, a tal “Dura Lex, Sed Lex” não funciona, entre nós a dureza da lei parece variar consoante a robustez da carteira do arguido.

Recordemos os épicos judiciais que animaram e ainda animam a República, o processo de José Sócrates, serpenteando por anos de incidentes e recursos, o colapso do Banco Espírito Santo (BES), onde a responsabilidade se dissolveu como açúcar em café morno, onde prometeram-se “últimas consequências”, mas está expressão em Portugal significa, regra geral, até ao próximo ciclo, ou será antes circo mediático.

A fiscalização não é um insulto pessoal, é um mecanismo Republicano, onde já Thomas Jefferson lembrava que “o preço da liberdade é a eterna vigilância” e por cá, a vigilância, é tratada como desconfiança estrutural, quase um pecado administrativo, mas a História ensina que a virtude, quando não fiscalizada, tende a férias prolongadas.

O problema Nacional não é a falta de leis, porque temos códigos suficientes para encher bibliotecas e alimentar pareceres, mas o drama reside na engenharia processual, recursos infindáveis, nulidades criativas, incidentes dilatórios, um verdadeiro circo jurídico onde o mais ágil não é o inocente, mas o mais abonado, pois Rui Barbosa avisava que “justiça tardia não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta” e, entre nós, a demora já quase reclama estatuto de património cultural.

Esvaziar o crivo prévio do Tribunal de Contas pode apresentar-se como libertação administrativa, receia-se que se converta em “Alibabá e os Quarenta Ajustes Diretos”, onde o Erário Público, esse parente pobre que paga sempre a conta, ficará entregue à virtude dos homens e à perícia de dirigentes que, muitas vezes, nunca redigiram um programa de procedimento ou um caderno de encargos, ou seja, Governa-se com convicção, contrata-se com técnica e confundir ambas é receita para a catástrofe.

Dir-se-á que os responsáveis serão punidos, mas a pedagogia da Justiça faz-se no exemplo célere, não na sentença arqueológica, porque um sistema, que permite eternizar processos, transmite ao futuro prevaricador uma mensagem cristalina, o risco é baixo, o tempo é aliado, a memória é curta.

Portugal não carece de mais retórica reformista, carece, sim, de uma reforma estrutural da Justiça e do Processo Penal, que limite expedientes dilatórios, equilibre o direito ao recurso com o dever de celeridade e trate o colarinho branco com a mesma severidade que o fato-macaco, uma Justiça verdadeiramente cega, não míope, e Salomónica, que proteja o interesse Público antes de ele ser saqueado.

Sem isso, a reforma do Estado será cosmética, muda-se a moldura, mantém-se o retrato e o contribuinte, esse eterno figurante da comédia Nacional, continuará a financiar o espetáculo, aplaudindo por obrigação e pagando por decreto.

Se a vigilância é desconfiança, então desconfiemos, porque, como ensinou Eça de Queirós, “a ironia é apenas a forma elegante de dizer verdades duras” e a verdade, em matéria de erário, é singela, sem controlo eficaz e Justiça célere, a porta fica aberta e os irmãos Metralhas entram sem precisar de arrombar.

Artigos do mesmo autor

A Europa, essa velha senhora de modos refinados e carteira sempre à beira de um suspiro, acorda novamente sobressaltada com o ruído distante, mas economicamente ensurdecedor, de mais um conflito no Médio Oriente e, como diria Winston Churchill, “os impérios do futuro são os impérios da mente” e, ao que parece, também do barril de […]

Há projectos de lei que nascem discretos, quase envergonhados, como quem pede licença para entrar pela porta do cavalo e há outros que entram de rompante, com a solenidade de quem acredita estar a salvar a República, mesmo que, no processo, lhe aperte a garganta, porque este Projeto de Lei nº 398/XVII/1ª surge assim, embrulhado […]

Portugal habituou-se perigosamente à governação por reacção, onde espera-se que a crise chegue, monta-se o cenário mediático, alinham-se comunicados solenes e entoa-se, em uníssono, o velho refrão, “vamos avaliar”, em que a prevenção é tratada como luxo, a responsabilidade como incómodo e o planeamento como exercício académico, porque entre PowerPoints e relatórios, esquecemo-nos de uma […]

Há sistemas políticos que envelhecem como certos fidalgos de província, mantêm a pose, o discurso empolado e o fato engomado, mas cheiram a mofo institucional, onde o nosso, herdeiro directo do pós-25 de Abril, entrou nessa fase terminal em que já não governa, reage e quando reage, fá-lo como todo o poder decadente, com medo, […]

No vasto salão da política Nacional, feito de carpete vermelha, discursos sonolentos e indignações de ocasião, há sempre um convidado que ninguém quer sentar à mesa, o Baixo Alentejo, é aquele primo pobre que chega tarde, traz as mãos calejadas e ainda por cima se atreve a pedir atenção. Ora, num País tão ocupado com […]