Milhares de organizações alertam para “consequências devastadoras” do fim de controlo de abuso sexual online

Mais de 2.400 organizações alertam hoje para “a lacuna profundamente alarmante e irresponsável na proteção das crianças” com o fim do regime europeu que permite detetar abuso sexual de menores 'online', a partir de 03 de abril.

© D.R.

“Nós, uma coligação de mais de 2.464 organizações que trabalhamos na promoção dos direitos das crianças e no combate a violência sexual, condenamos veementemente a falha dos decisores políticos europeus em prorrogar a base jurídica que permitia estas atividades de deteção. Esta falha cria uma lacuna profundamente alarmante e irresponsável na proteção das crianças. As consequências serão devastadoras — na Europa e para além dela”, lê-se no comunicado conjunto, divulgado hoje.

Entre as mais de 2.400 entidades está a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), membros da INHOPE (Associação de Prestadores de Serviços de Linhas de Apoio na Internet) ou a Victim Support Europe (VSE), a principal organização europeia de defesa dos interesses de todas as vítimas de crimes, independentemente do tipo de crime ou da identidade da vítima.

Num comunicado conjunto, esta coligação aponta que a interrupção desta autorização legal coloca milhões de crianças em risco e dificulta a identificação de vítimas e abusadores.

Segundo as organizações, a deteção em larga escala é indispensável para combater os milhões de imagens e vídeos de abuso sexual que circulam online.

Estes mecanismos permitem às plataformas remover conteúdos ilegais, impedir a redistribuição e encaminhar denúncias às autoridades, desencadeando investigações que protegem crianças e responsabilizam abusadores.

A coligação recorda que, quando o enquadramento jurídico esteve inativo, em 2021, durante apenas sete meses, as denúncias sobre abuso sexual de crianças online caíram 58%, não por diminuição do abuso, mas por falta de deteção.

“Cada imagem ou vídeo representa uma criança a sofrer violações repetidas dos seus direitos fundamentais, incluindo o direito à privacidade”, sublinha o comunicado.

A APAV defende que a proteção das crianças não é opcional, mas um dever consagrado nos quadros jurídicos europeus e internacionais.

“O mandato dos cidadãos europeus tem de ser respeitado; as crianças não podem continuar a pagar o preço do impasse político”, acrescenta a organização, reforçando a urgência da adoção de um quadro jurídico permanente e ambicioso.

A Linha Internet Segura, coordenada pela APAV, continuará a receber denúncias do público, analisar conteúdos e colaborar com as 56 ‘hotlines’ europeias, com o objetivo de tornar a internet um espaço mais seguro.

A coligação destaca que a ausência de deteção não só reduz denúncias e impede investigações, como também permite a circulação incontrolável de conteúdos abusivos, forçando as vítimas a reviver traumas repetidamente.

O comunicado salienta ainda que a não renovação da derrogação da ‘ePrivacy’ em 3 de abril ameaça toda a infraestrutura de proteção infantil online.

Sem esta base legal, as plataformas não podem detetar proativamente material de abuso sexual de crianças nem comportamentos de aliciamento, comprometendo a segurança das crianças.

A coligação de organizações subscritoras — incluindo instituições de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e dezenas de outros países — apela aos decisores políticos europeus para que ajam com responsabilidade, garantindo a deteção eficaz de conteúdos abusivos e cumprindo o dever de proteger crianças, tornando a proteção infantil uma prioridade inequívoca.

Na semana passada, no dia 26 de março, a União Europeia decidiu que não seriam prolongadas as regras de deteção de abuso sexual infantil ‘online’, que expiram em 03 de abril, após o Parlamento Europeu ter rejeitado uma proposta da Comissão Europeia.

A decisão vem no seguimento de o Conselho da UE e o Parlamento Europeu não terem chegado a acordo sobre o mecanismo legal da União Europeia que autorizava os prestadores de serviços online a identificar e reportar material de abuso sexual infantil, no âmbito de um regime temporário, enquanto não é aprovado um quadro legislativo permanente.

Estas regras provisórias, em vigor desde 2021 e que expiram em 03 de abril, permitiam que, em casos específicos de deteção de conteúdos com abusos sexuais sobre crianças, não se aplicasse temporariamente a chamada diretiva ‘ePrivacy’, que regula a privacidade nas comunicações eletrónicas.

Últimas do País

A corrupção é atualmente considerada a principal ameaça à democracia em Portugal, segundo os dados de uma sondagem incluída no relatório 'O 25 de Abril e a Democracia Portuguesa'.
As crianças de uma turma da Escola Básica Professora Aida Vieira, em Lisboa, ficaram impedidas de ter aulas durante uma semana, segundo relatam os pais, tendo a direção justificado a situação com a "necessidade de se reorganizar".
Uma empresa dedicada à sucata e a sua ex-gerente vão ser julgadas pelo Tribunal de Coimbra pela suspeita de dois crimes de fraude fiscal de três milhões de euros, associados a transferências para Hong Kong e Emirados Árabes Unidos.
As praias do Inatel e dos Pescadores, em Albufeira, foram hoje reabertas a banhos, pondo fim à interdição que vigorava desde terça-feira devido a uma descarga de águas residuais para o mar, disse o capitão do porto de Portimão.
A confusão começou na triagem e terminou com agressões. Uma enfermeira acabou agredida no Santa Maria e dois bombeiros terão sido atacados durante uma confusão que obrigou à intervenção da PSP.
O CHEGA votou contra a atribuição de apoio financeiro à marcha LGBT em Ponta Delgada, numa reunião da Câmara Municipal, defendendo que o dinheiro dos contribuintes deve ser utilizado para responder aos problemas reais da população e não para financiar “ideologias”.
Os autores do novo relatório sobre os ambientes de trabalho em Portugal avisam que a análise feita pode esconder uma "adaptação silenciosa" a níveis elevados de 'stress' e exaustão dos trabalhadores.
A PSP deteve nos primeiros quatro meses deste ano 1.356 condutores por falta de carta de condução, uma média de 11 por dia, na sequência de 7.027 operações de prevenção e fiscalização rodoviárias, foi agora divulgado.
A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 4.804 mães e pais vítimas de violência por parte dos filhos, a maioria por violência doméstica, segundo dados divulgados hoje por aquela instituição.
A Guarda Nacional Republicana (GNR) apreendeu na quinta-feira cerca de quatro toneladas de haxixe (resina de canábis) e três embarques junto à ilha algarvia Deserta, na ria Formosa, distrito de Faro.