PORTUGAL, DESPERTA Cinquenta e dois anos de um país amarrado ao mesmo erro

Existe uma herança que o socialismo partilha, sem pudor, com cada regime totalitário que a História registou, apesar de alguns negarem o óbvio. A convicção de que a vontade política dobra a realidade. O socialismo português foi um projecto contínuo de ocupação das instituições, das consciências e da linguagem. Um molde aplicado ao país com a paciência fria de quem sabe que o tempo é o seu maior aliado, ou talvez apenas fruto de um hábito que se enraizou sem grande explicação. Década após década, foi substituindo ambição por conformismo, iniciativa por autorização, responsabilidade por delegação até que o país deixou de reconhecer a diferença.

Cinquenta anos e dois anos depois do 25 de Abril, esse delírio permanece de pé, sobranceiro, com a mesma impunidade de sempre e é curioso como ainda resiste. A engrenagem que o sustenta range e corrói. Foi construída precisamente para fabricar dependência e para a distribuir com orgulho, embrulhada no papel gasto da protecção social, enquanto as suas vítimas continuam, curiosamente, a aplaudir de pé.

Há décadas que Portugal cresce abaixo da média europeia e admitir isto não se tornou mais fácil com o tempo. A dívida pública mantém-se excessiva. A emigração continua a marcar gerações mesmo que alguns tentem normalizar o fenómeno.
Nenhum destes números surgiu por acidente. São o produto previsível de um modelo. Um modelo que sempre tratou o Estado como dono, deixando o cidadão numa posição quase descartável, como se fosse um detalhe secundário.
E depois há quem beneficie disto.

Os carrascos desta ilusão são figuras sem nada que não tenha sido conquistado à sombra fria do erário público e por mais duro que soe, é o que se observa. Vivem da seiva do Estado como parasitas bem alimentados, convencidos de que a sua sobrevivência é sinónimo de justiça. A divergência paga-se com o ostracismo e a dúvida aprende cedo que o silêncio é mais seguro do que a palavra dita. Essa submissão sedimentada e esse medo subcutâneo são depois embalados e apresentados ao eleitorado com o rótulo de estabilidade e progresso.

Os anos 1977, 1983 e 2011, são três das páginas mais negras da História portuguesa do pós-25 de Abril, algo que quem viveu recorda sem esforço, Portugal foi de mão estendida ao exterior buscar o que os governantes socialistas haviam dilapidado. Não foi coincidência, dificilmente poderia ter sido. Foram três momentos em que a soberania foi hipotecada à pressa para tapar o rombo que a incompetência socialista abria com uma regularidade quase metódica, expondo uma incapacidade persistente de sustentar finanças públicas estáveis. O modelo revelou-se de uma simplicidade admirável, embora no pior sentido possível. Gastar o que não existia em obras que não serviam para beneficiar o país, mas para beneficiar quem não precisava. A tudo isto chamavam desenvolvimento. Os portugueses pagaram a conta com cortes extorquidos ao salário de quem trabalhava e juros que continuam a sangrar o país. A corrupção foi sempre o método e a incompetência que a alimentou foi o produto natural de décadas a recrutar pela obediência ao cartão rosa, nunca pelo mérito.

O colapso económico é o menor dos crimes, por mais exagerado que isto possa parecer à primeira vista. O verdadeiro crime ficou por baixo, onde a erosão trabalhou sem barulho durante décadas, quase invisível na maior parte do tempo. O que os socialistas quiseram, desde o início, foi produzir um tipo específico de cidadão. E conseguiram. Um cidadão sem ambição própria. Sem autonomia real. Grato pela migalha rançosa. Completamente incapaz de imaginar que o mundo podia ser diferente, como se essa possibilidade tivesse sido apagada antes de nascer. Trataram o indivíduo como matéria bruta a formatar, argila mole nas mãos dos talhados para inúteis que nunca souberam trabalhar a pedra. O homem livre, aquele que se governa pela razão e se constrói pelo esforço, tornou-se uma ameaça a eliminar por decreto.

O mérito foi sistematicamente penalizado, com raras excepções que aparecem aqui e ali. A iniciativa taxada até sufocar e quem construiu algo de seu foi olhado com suspeita enquanto quem nada construiu ascendeu por dentro do aparelho com a naturalidade de quem ocupa o lugar que sempre lhe estava destinado. O objectivo nunca foi desenvolver o país, pelo menos não é isso que a realidade sugere a quem observa os resultados. Foi domesticar quem o habitava e conseguiram-no com grande eficácia. Uma população que aprendeu a pedir em vez de exigir, a aguardar em vez de agir e que acabou, quase sem dar por isso, a delegar no Estado a responsabilidade que só pode ser de cada um.

A liberdade não desaparece nestas circunstâncias, mas há momentos em que parece perder nitidez, como se ficasse a meio caminho. Recolhe-se, espera, sobrevive nos que recusam ajoelhar e nos que ainda constroem apesar do peso morto que lhes é imposto. Não é uma ideia abstracta nem uma extravagância ideológica, apesar do que alguns repetem com insistência. É o fundamento mais antigo e mais resistente das sociedades que prosperam e a experiência acumulada ao longo dos séculos mostra-o com alguma crueldade.
E é aqui que tudo se separa.

Chama-se responsabilidade individual, propriedade do próprio destino e direito ao erro sem a tutela permanente de um Estado que trata adultos como menores a quem é preciso explicar como viver. É o que sempre distinguiu as sociedades que avançam. Sempre foi. As que não avançam ficam onde o sistema as quer manter.

Portugal carrega mais de meio século de evidências gravadas a fogo e não se pode dizer que sejam poucas. Três resgates externos, uma soberania repetidamente hipotecada, emigrantes obrigados a partir por um sistema que sufoca quem tenta construir e que recompensa quem aprende a navegar nos corredores húmidos do Estado. O veredito acabou imposto pela própria realidade, quer agrade ou não, porque a realidade acaba sempre por se impor. Cabe agora aos portugueses, com o voto, fazer o que a evidência reclama, ou não. A escolha é deles, sempre foi.

Convém lembrar que a primeira obrigação de um homem livre é não abdicar da sua liberdade.

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