O português nasce acorrentado por hábitos, medo e resignação. Ensinaram-no a ser quieto, previsível e agradecido pelo mínimo. Trabalha para sobreviver e paga para existir. E quando chega ao fim do mês exausto, ainda lhe dizem que devia sentir-se privilegiado.
Salários baixos. Rendas sem controlo. Contas a subir mais depressa do que a vida. E mesmo assim há políticos a celebrar porque o país ainda não rebentou.
Prometem progresso há décadas e governam a decadência.
Mudam governos, mudam slogans, mudam ministros. Mas, no fim, ficamos sempre com a sensação de que nada mexe realmente. Porque quem está confortável dentro do sistema raramente tem interesse em mudá-lo.
Há uma geração inteira que carregou este país às costas. Gente que acordou cedo quarenta anos seguidos. Trabalhou doente, passou frio e descontou sem falhar. E agora vê a reforma afastar-se como se envelhecer fosse uma falha pessoal.
Falam de sustentabilidade enquanto nunca abdicam dos próprios privilégios. Pedem sacrifícios sempre aos mesmos. Aos que trabalham. Aos que contam tostões. Aos que já vivem no limite há demasiado tempo.
E talvez o mais perigoso seja a forma como nos habituámos.
Habituámo-nos às listas de espera. Aos salários curtos. À ideia de sobreviver em vez de viver. À frase “podia ser pior”.
O país foi-se desgastando devagar. Em pequenas desistências. Em silêncios. Em promessas repetidas até perderem significado.
Cada um desses silêncios teve um rosto.
Teve um nome.
Teve um voto.