Em 1981, o XVI colóquio do GRECE, acrónimo de Groupement de recherche et d’études pour la civilisation européenne (Grupo de Investigação e Estudos sobre a Civilização Europeia), o think tank da corrente de pensamento que ficou conhecida como «Nouvelle Droite», a Nova Direita francesa, teve como tema «Para um gramscismo de direita». Era uma proposta tão inovadora como provocadora. François Mitterrand conquistara nesse ano a Presidência da República e a direita procurava novas vias de contrariar o poder crescente da esquerda, ainda sem adivinhar que seria ele o Presidente que mais tempo ficaria no poder, com um mandato interrompido de 14 anos.
A proposta central do GRECE era a de um combate cultural que, necessariamente, antecipava uma vitória política. De facto, a Nova Direita foi inovadora, inspirando a política francesa e movimentos semelhantes em vários países europeus. Mas estaria a seguir exactamente a lição do comunista italiano?
Guillaume Faye, um dissidente do GRECE, fez uma dura crítica nesse sentido no seu ensaio L’Archéofuturisme, publicado em 1998, afirmando: «Infelizmente, nós nunca tínhamos lido verdadeiramente Gramsci.» Haverá seguramente algum exagero, até porque a proposta foi importante, mas num aspecto o reparo era certeiro. O combate cultural não pode ser feito por intelectuais em torres de marfim, distantes do povo e das instituições, além de ter de girar em torno de um partido. No caso de Gramsci não havia dúvidas, esse eixo era o Partido Comunista Italiano, já na França dos anos 80 do século passado a escolha à direita não era fácil…
As recentes vitórias do chamado populismo de direita e o crescimento dos partidos que o representam alteraram o panorama político e a relação de forças nas guerras culturais em curso. Mas será possível conservar ganhos eleitorais sem garantir o poder cultural? A resposta é negativa e a estratégia a seguir é a de um gramscismo de direita.
Nesse sentido, Benedikt Kaiser, ensaísta autor de vários livros e assessor parlamentar da Alternative für Deutschland (AfD), publicou recentemente aquilo a que podíamos chamar um verdadeiro manual do gramscismo de direita. Em Der Hegemonie entgegen (Rumo à Hegemonia), que já tem uma tradução francesa, define a batalha a travar pela hegemonia, hoje dominada pela esquerda liberal.
Nesta obra, recorda que, para Gramsci o Estado é a soma da sociedade política e da sociedade civil, ou seja, hegemonia, blindada pela coerção. A sua mensagem central é a de que o domínio dos detentores do poder não pode assentar apenas no monopólio da violência, mas «nos valores e nos conhecimentos, nos mecanismos de integração, na indústria cultural e nos compromissos com outras forças sociais».
Depois de explicar a hegemonia e a metapolítica, o domínio que precede a realpolitik, Kaiser dá um panorama da Nova Direita alemã e também um apontamento biográfico de Antonio Gramsci. A seguir, numa perspectiva teórico-prática, define conceitos gramscianos e aponta casos concretos da sua aplicação na política actual.
A conclusão é clara, para vencer é necessário aproveitar a janela de oportunidade que agora se abriu, conhecer e estudar os interesses, as preocupações e as necessidades do povo e integrá-los nos métodos de trabalho tanto políticos como metapolíticos.