Há uma imagem que regressa ciclicamente ao imaginário político português sempre que um escândalo rebenta nas fileiras do Partido Socialista, a do polvo. Não um polvo qualquer, mas um polvo tingido de rosa, com tentáculos longos, viscosos e silenciosos, capazes de alcançar gabinetes ministeriais, empresas públicas, autarquias, institutos e corredores onde o poder se move sem testemunhas. Esta metáfora não nasceu do acaso. O polvo é paciente. Move-se devagar. Camufla-se. E, sobretudo, protege o corpo central através dos tentáculos. Quando um é cortado, os restantes continuam vivos. Talvez por isso a retórica clássica do Partido Socialista, perante suspeitas de corrupção, tráfico de influências ou favorecimento, siga quase sempre o mesmo guião, primeiro a negação indignada, depois a vitimização, mais tarde a desresponsabilização individual, por fim, o apelo à “presunção de inocência” como escudo político absoluto.
O ritual tornou-se previsível. Assim que surge uma busca judicial ou uma detenção mediática, aparecem imediatamente as frases feitas: “confiamos plenamente na justiça”, “não comentamos processos em curso”, “trata-se de ataques políticos”, “não podemos confundir suspeitas com condenações”. Tudo tecnicamente correto. Tudo juridicamente aceitável. Mas politicamente insuficiente. Porque o problema nunca foi apenas criminal. É sobretudo moral e estrutural.
Portugal habituou-se a assistir, década após década, a uma sucessão de casos envolvendo figuras ligadas ao socialismo governativo, ora vejamos, Freeport, Face Oculta, Operação Marquês, os casos BES/GES, TAP, indemnizações polémicas, nomeações cruzadas, favorecimentos em empresas públicas, Operação Influencer, ajustes diretos recorrentes, relações promíscuas entre Estado e grandes grupos económicos. Em muitos desses casos não houve condenações definitivas, noutros, os processos arrastam-se há anos. Mas a erosão da confiança pública já aconteceu há muito tempo. E é precisamente aí que o polvo prospera, na lentidão, na complexidade processual e na confusão entre responsabilidade política e responsabilidade criminal.
O Partido Socialista construiu historicamente uma cultura de poder baseada na ocupação extensa da máquina do Estado. Não é exclusivo do PS, seria intelectualmente desonesto afirmá-lo, mas no caso socialista essa tendência ganhou uma dimensão particularmente profunda devido aos longos períodos de governação. O Estado tornou-se, muitas vezes, uma rede de fidelidades, onde os tentáculos se entrelaçam entre assessorias, administrações públicas, consultoras e empresas participadas. A cor rosa, símbolo tradicional do socialismo democrático europeu, acabou assim por adquirir em Portugal uma dupla leitura, a da esperança social para uns e a da opacidade clientelar para outros. Curiosamente, a retórica socialista raramente responde politicamente ao essencial, porque é que tantos casos surgem repetidamente no mesmo ecossistema de poder? Porque existe uma perceção persistente de promiscuidade entre política e interesses económicos? Porque é que tantos dirigentes alegadamente nada sabem até ao dia em que a Polícia Judiciária bate à porta? A resposta habitual é reduzir tudo a “casos isolados”. Mas quando os casos isolados se repetem durante décadas, deixam de parecer acidentes. Passam a sugerir método, cultura ou complacência institucional.
O polvo sobrevive também graças à tribalização partidária. Militantes e simpatizantes defendem o indefensável não por convicção racional, mas por fidelidade emocional. O adversário político deixa de ser um concorrente democrático para passar a ser o inimigo absoluto. E assim, qualquer investigação judicial transforma-se automaticamente numa “cabala”, numa “perseguição” ou num “ataque à esquerda”. Ou, ainda nas declarações tecidas por Miguel Prata Roque na imprensa, em horário nobre, por ocasião das buscas realizadas pela Polícia Judiciária, no passado dia 28 de maio, na sede do PS, no Largo do Rato, (Operação Imergente), onde referiu a coincidência desta ação, precisamente com o centenário do golpe de Estado de 28 de maio de 1926, que resultou na queda da Primeira República Portuguesa. Pasmem-se.
No fim, sobra o cidadão comum, esmagado entre impostos elevados, serviços públicos degradados e a sensação amarga de que existe uma elite política permanentemente protegida por tinta cor-de-rosa. Como o polvo, essa tinta serve para turvar a água, confundir a visão pública e permitir a fuga no momento crítico. Mas há uma diferença importante entre o mar e a democracia, no mar, o polvo esconde-se nas profundezas. Na democracia, cabe aos cidadãos impedir que os tentáculos se tornem maiores do que o próprio Estado.