Portugal foi eleito membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU. Rangel emocionou-se até às lágrimas. Montenegro deu pulos de contente e falou num “dia histórico”. Para a diplomacia portuguesa é como ganhar o campeonato do mundo de futebol.
A celebração excessiva, a retórica do “prestígio nacional”, os discursos sobre “a nossa política externa apreciada no mundo” exigem um contraponto. Para que serve, na prática, sentar-se num velório que há anos não consegue resolver nada de relevante, curiosamente liderado pelo socialista Guterres?
Em Maio, a China convocou uma reunião para “debater a defesa dos propósitos e princípios da Carta da ONU e o reforço do sistema internacional”. A ONU foi fundada em 1945 para manter a paz. Oitenta anos depois, os cinco países com veto continuam a bloquear tudo o que os incomoda. Debateram a própria impotência. Não chegaram a nenhuma conclusão.
Foram gastos 1,7 milhões de euros apenas nesta fase da candidatura. Somem-se os custos acumulados ao longo de mais de uma década de lobbying diplomático, viagens, hotéis, subsídios, encontros bilaterais, recursos humanos afectos e custos futuros. Qual o retorno concreto para Portugal numa sala onde pode falar, pode votar e não pode decidir nada?
A resposta honesta é vaidade e mais cargos associados ao mandato distribuídos por critérios de proximidade política. Não serve para nada. Sem influência concreta no mundo actual. Chamar-lhe “vitória histórica” e “reconhecimento do nosso prestígio internacional” é confundir a participação no processo com a capacidade de alterar os resultados. É uma vitória que não conta para o Totobola. É fazer parte do clube dos poetas mortos.
Estamos em 2026. O mundo fala poder e Portugal responde com pontes.
O soft power português é uma ilusão cara. A Carta da ONU é citada quando convém e ignorada quando não convém. Ser construtor de pontes custa-nos milhares de euros num mundo que só respeita quem tem o dedo no gatilho.
No fim, esta “vitória histórica” diz mais sobre Portugal do que sobre o mundo. Um país que gasta treze anos e dinheiro público a candidatar-se a um cargo sem veto, numa instituição que debate a própria impotência e que chora de emoção quando ganha tem um complexo de inferioridade com fato e gravata. Rangel e Montenegro deveriam aprender com os coveiros. Fazem o trabalho, enterram e não chamam à pá um instrumento de transformação mundial. Ganhamos uma cadeira num velório onde ninguém manda, ninguém decide e ninguém ressuscita.
Portugal entrou num velório e saiu convencido de que foi a uma festa.