“Serpa ao Abandono, SNS à Deriva: A Crónica de um Estado que Virou costas ao Interior”

Portugal é um país extraordinário, consegue transformar direitos Constitucionais em exercícios de paciência e fazer do Serviço Nacional de Saúde (SNS) uma espécie de lotaria nacional, onde o prémio maior é conseguir uma consulta antes da reforma.
O artigo 64.º da Constituição promete um SNS universal, geral e tendencialmente gratuito, mas, em Serpa e no Alentejo profundo, a realidade, porém, parece ter sido escrita em letras pequenas, universal para quem mora perto dos grandes centros, geral para quem tem sorte e gratuito porque, muitas vezes, nem serviço há para pagar.
O interior do País habituou-se a ser tratado como a mobília velha da República, onde ninguém a deita fora porque faz parte da casa, mas também ninguém a restaura e o resultado está à vista, populações envelhecidas, serviços a definhar e um sentimento crescente de abandono que já deixou de ser perceção para passar a ser um facto político.

Há mais de quinze anos que sucessivos governos prometem reformas estruturais para o SNS, mas, contudo, grande parte deste período foi marcada por executivos socialistas que tiveram tempo, recursos e maiorias suficientes para fazer diferente, mas preferiram gerir crises em vez de resolver problemas e o SNS foi-se degradando lentamente, como uma casa onde se muda a pintura enquanto as fundações cedem.
O caso de Serpa é paradigmático, onde o processo, envolvendo a Santa Casa da Misericórdia, o hospital, o centro cirúrgico, os cuidados continuados e as restantes valências poderia representar uma oportunidade de revitalização, em existem interessados e potenciais investidores, nacionais e internacionais, dispostos a contribuir para a sustentabilidade destas estruturas, mas, porém, esbarra-se frequentemente numa muralha ideológica onde o preconceito contra qualquer colaboração privada parece mais importante do que garantir cuidados de saúde à população.

A ironia é deliciosa, os mesmos que durante décadas repetiram que a saúde não podia ser um negócio conseguiram transformar a falta dela num dos maiores negócios políticos do País, porque discute-se quem pode gerir, mas esquece-se quem precisa de ser tratado.
A destruição das parcerias público-privadas (PPP’s) que apresentavam resultados positivos em vários indicadores foi vendida como uma vitória ideológica, mas o problema das vitórias ideológicas é que não passam receitas médicas, não contratam profissionais e não mantêm urgências abertas, a realidade tem o péssimo hábito de não respeitar cartilhas partidárias.
Entretanto, o Alentejo continua a desempenhar o papel que Lisboa lhe atribuiu, o de figurante silencioso, onde faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam medicamentos e sobra burocracia, mas, em compensação, nunca faltam visitas oficiais, fotografias, inaugurações de placas e promessas de investimento que chegam sempre na campanha seguinte.

Também não deixa de ser curioso que Portugal tenha encontrado milhões para alimentar estruturas administrativas, desperdícios e projetos de utilidade duvidosa, enquanto comunidades inteiras esperam por respostas básicas na saúde, porque o dinheiro existe, mas o que parece faltar é prioridade política e coragem para enfrentar interesses instalados.
Como dizia Winston Churchill, os políticos têm uma extraordinária capacidade para prever o que vai acontecer amanhã e explicar porque não aconteceu, mas em Portugal, aperfeiçoámos a técnica, criámos especialistas em anunciar soluções para problemas que os próprios ajudaram a criar.

Serpa e o Alentejo não pedem privilégios, pedem apenas que a Constituição deixe de ser um documento de intenções e passe a ser um compromisso cumprido, pedem que a saúde deixe de ser refém de dogmas ideológicos e de cálculos partidários, pedem que o interesse das populações esteja acima dos interesses das máquinas políticas, em resumo, Exigimos o que é nosso por direito!
O estado atual do SNS não é obra do acaso nem resultado de uma fatalidade histórica, é consequência de anos de decisões erradas, de imobilismo e da incapacidade de colocar as pessoas à frente das conveniências políticas, em que os maiores responsáveis, por este longo ciclo de governação, terão de prestar contas perante a História e perante os portugueses.

Porque, no fim de contas, um País mede-se pela forma como trata os seus cidadãos mais vulneráveis e, quando um doente em Serpa percebe que a distância ao cuidado é maior do que a distância à esperança, talvez seja tempo de perguntar, não apenas Quo vadis, SNS?, mas sobretudo: Quo vadis, Portugal?

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