Quando o combate ao crime se transforma em um espetáculo de magia

Perdoem este breve desabafo. Escrevo na esperança de não ser o único a achar o recente escândalo protagonizado pelo Ministro da Administração Interna verdadeiramente hilariante, não pelo embaraço das alegadas irregularidades burocráticas terem sido cometidas por um ex-Diretor Nacional da Polícia Judiciária, o que por si, já é cómico, mas por nos catapultar de volta para a política de bastidores que julgávamos ter deixado para trás, onde tudo ou quase tudo é permitido sem que os governantes sejam sequer chamados a prestar contas.

A primeira pergunta que me surgiu ao ler o currículo cada vez mais criativo deste senhor, foi: terá participado em algum seminário promovido pelo ex-Primeiro Ministro José Sócrates no sentido de apurar a sua já notável criatividade? Será, porventura, admirador confesso do legado do antigo chefe de Governo? Existirá alguma escola vocacionada para a formação de alegados aventureiros? Caso exista, este senhor parece ter passado com distinção.

Falamos de um homem que liderou investigações de grande relevância, como a captura do ex-líder do BPP, João Rendeiro, e que foi considerado um dos maiores especialistas portugueses em terrorismo e crimes transnacionais, sobretudo os de natureza mais organizada e violenta. Custa, por essa razão, compreender como conseguiu perder de vista um atrelado apreendido num processo de tráfico de droga? Terá sido propositado?

Estaria a aperfeiçoar a nobre arte do ilusionismo? Na minha ingenuidade, confesso não considerar possível ter o privilégio de assistir ao desaparecimento e consequente reaparecimento de um bem confiscado pela própria Polícia Judiciária, encontrado curiosamente junto a um camião da empresa Construbarcelos, a mesma que, por feliz acaso, se encontrava a realizar obras na propriedade particular do senhor Ministro. Já que se falou da empresa Construbarcelos, convém não esquecer que, para os comuns mortais, realizar obras numa propriedade sem pedido de Licença e/ou comunicação prévia, normalmente é recompensado com uma coima pode variar entre 500 € e 200.000€. Fica então a pergunta: este senhor também será presenteado com alguma sanção, ou ficará isento por decreto tácito da praxe portuguesa? Será convidado a demitir-se, à semelhança do que sucedeu com os outros antes dele? Preferirá o Partido Social Democrata criar um mecanismo interno para motivar a sua rapaziada a comportar-se?

Infelizmente, creio que não conseguiremos obter nem metade das respostas a estas
perguntas. Ainda assim, os portugueses poderão contar sempre com o CHEGA, atento e
vigilante perante este tipo de tendências exóticas da nossa vida política. Foi por isso que
o Partido apresentou recentemente o Projeto de Lei 706/XVII/1, que propõe alterar o
Regime do Exercício de funções por titulares de cargos políticos e altos cargos públicos no
sentido de limitar negócios com familiares.

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