Temos presenciado, não raras vezes, momentos em que a nossa política deixa de ser um jogo de meias-palavras e passa a ser uma questão de sobrevivência moral. O grito de alarme do Conselheiro Nacional do PSD, Vitório Rosário Cardoso — ao convocar os “patriotas” para travarem o risco sufocante de uma “dinâmica de bando” —, não é um mero ajuste de contas partidário. É um murro na mesa; numa recusa estóica de assistir, de braços cruzados, ao apodrecimento por dentro do próprio Estado.
A gravidade da situação exige que se fale sem panos quentes. O contexto que, alegadamente, envolve o ministro da Administração Interna, Luís Neves, não é um pormenor técnico nem uma pequena falha de percurso: a ser verdade, é uma ferida aberta na credibilidade das instituições. As notícias sobre a gestão de bens apreendidos pela Polícia Judiciária, ao tempo em que Luís Neves liderava a instituição — designadamente, a presumível cedência indevida de um atrelado com produtos químicos destinados ao fabrico de droga a um empresário do seu círculo pessoal —, atingem o coração da confiança pública. Quando a Procuradoria-Geral da República investiga indícios de abuso de poder e descaminho no topo da segurança nacional, o chão do Estado treme.
É perante este cenário sufocante que a voz de Vitório Rosário Cardoso ecoa com a força da indignação de quem traz na bagagem a exigência do jornalismo, a finura da diplomacia e a vivência de quem serviu Portugal em Macau e na CPLP. Uma indignação que não consegue — nem deve — engolir o sapo do compadrio.
Ao exigir a degola definitiva de qualquer cordão umbilical ao “polvo”, Vitório Cardoso está a tentar resgatar a honra da República. Quando a tutela da segurança pública fica manchada pela opacidade e pela promiscuidade com interesses privados, o silêncio deixa de ser prudente para passar a ser cobardemente conivente.
O seu apelo aos “patriotas” é um grito de revolta contra a habituação ao lodo. É um lembrete de que o Estado não deve pertencer a redes de influência, não pertence a chefias cegas e não deve ser uma extensão de interesses pessoais. Confrontar as estruturas do próprio partido pode causar dores incómodas e queimaduras, mas quando a dignidade do País está a ser arrastada, qualquer silêncio é visto como cumplicidade pura e dura.
Vitório Rosário Cardoso, enquanto dirigente, deu a cara e, com o seu património ético e diplomático decidiu estilhaçar o politicamente correcto para intimar os “patriotas” a salvarem as instituições. Ao denunciar as alegadas movimentações promovidas pela tutela e ao exigir o corte impiedoso dos supostos tentáculos instalados, Vitório Cardoso colocou a sua voz como uma linha de prumo entre a honra e o achavascamento do Estado. O repto está lançado — resta saber quem no PSD terá a coragem de o acompanhar.