Os vídeos do dia 30 de Julho de 2026, com dezenas de milhares de homens marroquinos e subsaarianos a forçar em massa os portões de Ceuta – evocando o imaginário clássico de bárbaros a saquear Roma –, praça-forte que serve de defesa avançada da Europa desde 1415, chocaram qualquer europeu de sã consciência.
Assistir às forças de segurança de Espanha a serem subjugadas pela dimensão do fluxo humano – assim como a população confinada e o comércio encerrado, carrega um simbolismo de humilhação e debilidade de uma civilização cansada, que parece ter perdido a vontade de se defender.
Quer este episódio integre uma estratégia de guerra híbrida no xadrez geopolítico global, quer não, a incapacidade de tomar uma decisão firme e resoluta é, per se, motivo de reflexão.
O evento constitui, no imediato, um perigo acrescido para a segurança do Velho Continente, num país aderente e membro pleno do Espaço Schengen. Assim entendeu (e bem) o executivo de Giorgia Meloni que logo suspendeu o acordo de livre circulação com Espanha. Madrid retaliou, ameaçando com medidas recíprocas, mas Itália manteve a posição, reiterando não aceitar ultimatos, e, lançando uma ofensiva diplomática em Bruxelas, contra as políticas migratórias de Pedro Sánchez.
Posto isto, Ceuta remete-nos inevitavelmente para o célebre e premonitório livro de Jean Raspail, “Les Camps des Saints”, editado em 1973, um romance distópico que narra o colapso da civilização ocidental devido à imigração em grande escala vinda do Terceiro Mundo.
Na obra de 1973, uma enorme flotilha, transportando uma multidão de esfaimados da região do Ganges, Indostão, parte em direcção à Europa à procura de uma vida melhor. A armada acaba por encalhar na costa sul de França, desencadeando uma crise humanitária sem precedentes ante a paralisia política e social do Ocidente burguês e liberal, exponenciada pelo teatro de manipulação emocional da esquerda jornalística, quinta coluna da invasão migratória. A inércia e a cobardia decisória são, a bem dizer, a tese central do escritor francês.
Raspail, em entrevista ao El País, afirma mesmo em 2017:
“O tema principal do livro, no fundo, não é a invasão do Ocidente pelo Terceiro Mundo. Na verdade, é um romance que descreve a cobardia, a fraqueza, a ausência de ideais, a decadência total em que o Ocidente, ou seja, a nossa Europa, está afundado já há algum tempo. Temos pela frente uma pilha de pessoas com motivos poderosos e deixamos-las entrar em massa por uma espécie de indiferença triste.”