“A Crise Energética vs. o Conflito no Golfo: O Mundo à Beira de um Novo Choque Global”

Há crises que chegam de pantufas, quase pedindo desculpa por incomodar, mas há outras que entram de rompante, como um touro numa loja de cristais, em que a crise energética, provocada pela instabilidade no Médio Oriente, pertence, sem dúvidas, à segunda categoria, porque basta um míssil cruzar os céus do Golfo, um navio atrasar-se no Estreito de Ormuz ou um comunicado diplomático soar mais agressivo, para o preço do petróleo disparar e cidadão comum, esse herói anónimo que paga tudo e decide quase nada, abre a factura da electricidade como quem tenta decifrar um manuscrito medieval, não percebe metade, mas sabe que lhe vai doer na carteira.

Como tenho afirmado repetidamente, seguimos numa verdadeira autoestrada rumo ao incumprimento das metas energéticas de 2030, com o acelerador a fundo e o problema é que, nesta viagem, a portagem é paga pelos contribuintes e cada quilómetro custa mais do que o anterior.

A Agência Internacional de Energia já alertou que as tensões no Estreito de Ormuz voltaram a expor a vulnerabilidade do sistema energético mundial, onde o aviso foi claro, reforçar a cooperação, diversificar fontes de abastecimento e preparar respostas coordenadas, mas, em vez disso, assistimos ao habitual campeonato internacional de acusações, onde todos apontam o dedo e ninguém segura o volante.

Em Portugal, a realidade não é menos caricata, durante mais de cinco décadas, PS e PSD foram alternando no poder como dois actores que representam peças diferentes, mas decoram o mesmo guião, onde uns prometem reformas, os outros prometem corrigir as reformas dos primeiros e o resultado é um país que continua excessivamente dependente do exterior para garantir a sua segurança energética.

Como dizia Ronald Reagan, “o Governo não é a solução para o problema; o Governo é muitas vezes o problema.” e em Portugal, por vezes, consegue ser simultaneamente o problema, o atraso e a comissão de acompanhamento do problema.

Entretanto, os combustíveis sobem, mais de 30%, o gás acompanha, acima dos 35%, o cabaz alimentar transforma-se num artigo de luxo, ultrapassando os 250 euros por família, e os salários insistem em permanecer presos a uma realidade que já ninguém reconhece e o Mundo vive sobressaltado por guerras, bloqueios comerciais e disputas geopolíticas, enquanto Bruxelas continua “convencida” de que basta aprovar mais um regulamento para alterar as leis da geografia e da economia.

E depois existe o paradoxo português, um país com cerca de trezentos dias de sol por ano continua longe de aproveitar plenamente esse recurso extraordinário, pois tal como afirmou Ursula von der Leyen, “as energias renováveis são a chave da nossa independência.”, o problema é que, por cá, essa chave parece perdida entre pareceres técnicos, estudos de impacto ambiental, despachos, recursos e burocracias que envelhecem antes de serem concluídos.

Foi precisamente por isso que apresentei, em 2021 e novamente em 2025, a proposta “Um Telhado, Um Painel Fotovoltaico”, em que não se tratava de uma revolução ideológica, mas sim de uma solução de bom senso, produzir energia onde ela é consumida, aliviar famílias e empresas e reduzir a dependência externa.
Mas o bom senso continua a ser um visitante incómodo na política portuguesa, pois prefere-se inaugurar intenções do que concluir obras, anunciar estratégias em conferências de imprensa do que executá-las no terreno e tal como dizia Winston Churchill, “a política é quase tão excitante quanto a guerra e não menos perigosa.” e em Portugal, acrescentaria eu, tornou-se também uma arte refinada de adiar decisões urgentes.

No fim de contas, sobra uma comédia digna de Eça de Queirós, um país inundado de sol que continua dependente da energia dos outros, uma Europa que fala de autonomia estratégica enquanto compra vulnerabilidade, (des)governos que proclamam urgência enquanto coleccionam adiamentos e, por fim, um povo que, resignado, continua a pagar a factura de todas as incoerências.

Porque a energia não é uma questão de esquerda ou de direita, é uma questão de soberania, de segurança e de sobrevivência económica e enquanto continuarmos a trocar realismo por propaganda, estratégia por improviso e coragem por cálculo eleitoral, o futuro não será alimentado pela luz do sol, será iluminado apenas pelo brilho das facturas que todos teremos de pagar.

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