Depois de uma sucessão de políticas que tornaram a Europa menos competitiva, mais burocrática e mais cara, Bruxelas descobriu uma nova fonte de capital para dinamizar a economia europeia: as poupanças dos próprios cidadãos.
Ursula von der Leyen afirmou recentemente que cerca de 10 biliões de euros das poupanças das famílias europeias permanecem em depósitos bancários e defendeu uma maior mobilização desse dinheiro para financiar empresas e investimento na Europa, no âmbito da União da Poupança e dos Investimentos.
Importa esclarecer, que não foi anunciada qualquer obrigação de os cidadãos entregarem ou investirem as suas poupanças. Mas a orientação política é evidente – Bruxelas olha para o dinheiro que os europeus conseguiram guardar e pergunta como poderá colocá-lo a financiar a economia.
Em Portugal, só podemos perguntar, que poupanças?
Talvez, visto dos gabinetes das instituições europeias, dez biliões de euros pareçam uma extraordinária reserva financeira à espera de ser mobilizada. Para milhares de famílias portuguesas, a realidade é bastante menos sofisticada, o salário chega à conta e desaparece como magia entre habitação, alimentação, energia, combustível, prestações e impostos.
E se descermos de Bruxelas até às Regiões Autónomas, a ironia torna-se ainda maior.
Nos Açores, a insularidade não é uma expressão abstrata utilizada em tratados europeus. Tem um preço. Está no transporte de mercadorias, na mobilidade, na energia e no custo de muitos bens e serviços. Quem vive numa ilha sabe que a distância também se paga.
Por isso, antes de perguntarem aos portugueses como podem transformar as suas poupanças em investimento, talvez fosse conveniente perguntar quanto lhes sobra ao fim do mês para poupar.
É precisamente aqui que determinada política europeia revela uma preocupante inversão de prioridades.
Durante anos sobrecarregaram empresas com regulamentação, aumentaram os custos associados à transição energética, multiplicaram burocracia e permitiram que a Europa perdesse competitividade perante economias como os Estados Unidos e a China. Agora descobrem que as empresas europeias precisam desesperadamente de capital.
E onde procuram a solução? Novamente no cidadão.
Defendo empresas europeias fortes. Defendo que o investimento fique na Europa e que Portugal seja capaz de captar capital, criar riqueza e pagar melhores salários. Mas existe uma diferença fundamental entre criar condições para que os cidadãos queiram investir e encarar as suas economias como capital adormecido que importa mobilizar para corrigir problemas que a própria política europeia ajudou a criar.
Querem mais poupança europeia investida na Europa?
Comecem pelo princípio.
Criem condições para haver salários dignos. Baixem impostos sobre quem trabalha e produz. Reduzam a burocracia. Tornem a energia competitiva. Protejam a indústria europeia. Protejam a nossa agricultura e as pescas. Compensem verdadeiramente os custos permanentes da ultraperiferia e da insularidade.
E permitam que uma família portuguesa chegue ao final do mês com alguma coisa para guardar.
Porque pedir investimento a quem luta para conseguir poupar não é uma política económica.
É quase uma ironia.
E antes de Bruxelas decidir o que fazer com as poupanças dos europeus, talvez devesse preocupar-se em criar uma Europa onde os europeus ainda consigam poupar.