No último sábado, dia 29 de Agosto, 52,8% dos islandeses recusaram a retoma das negociações para uma eventual adesão à União Europeia. 47,2% votaram a favor.
Foi uma diferença pequena, mas suficiente para travar, uma vez mais e por agora, o processo de aproximação à União.
As explicações mais imediatas falam das pescas, dos juros, da moeda e dos receios de perder margem de decisão. Tudo isso conta.
Mas há uma coisa que talvez conte ainda mais:
A memória.
Os islandeses não esqueceram 2008.
Naquele ano, os três maiores bancos do país tinham atingido uma dimensão gigantesca face à economia islandesa. Quando o sistema financeiro colapsou, o Estado não tinha capacidade para fazer aquilo que outros governos europeus fizeram: assumir integralmente as perdas do sector bancário.
Os bancos caíram.
O Estado protegeu os depósitos dos cidadãos islandeses e recusou transformar automaticamente as responsabilidades de instituições privadas perante credores estrangeiros numa dívida do povo.
Seguiu-se o caso Icesave, uma longa disputa com o Reino Unido e os Países Baixos. Londres chegou a recorrer à legislação antiterrorista para congelar ativos islandeses.
Os islandeses foram chamados a pronunciar-se e rejeitaram as condições que lhes eram apresentadas.
Mais tarde, o Tribunal da EFTA decidiu a favor da Islândia numa questão fundamental relacionada com as garantias de depósitos.
Mas não ficou por aí.
Houve investigação e processos judiciais. Vários responsáveis da banca foram condenados a penas de prisão. O antigo primeiro-ministro Geir Haarde também respondeu perante o Tribunal, tendo sido considerado culpado de uma falha concreta na gestão política da crise, embora absolvido das acusações mais graves.
A Islândia não saiu ilesa.
A moeda desvalorizou-se, a crise foi profunda e os islandeses pagaram um preço elevado.
Mas fizeram uma escolha diferente.
E é aqui que a comparação com Portugal se torna incómoda.
Também nós conhecemos o colapso bancário.
BPN.
BES.
Banif.
Conhecemos nacionalizações, resoluções, garantias, fundos de resolução e enormes custos para os contribuintes.
Conhecemos igualmente a austeridade, a perda de rendimento, o desemprego e a emigração que marcaram os anos seguintes à crise.
E conhecemos uma Justiça que, demasiadas vezes, chegou tarde.
Não estou a dizer que Portugal pudesse simplesmente copiar o modelo islandês. Não podia. Os dois países tinham dimensões, moedas, sistemas financeiros e condições económicas muito diferentes.
Mas a diferença essencial continua a merecer discussão:
Quando um banco privado entra em colapso, até onde deve ir o Estado para o salvar e quem deve suportar as perdas?
É uma pergunta que continua atual.
E talvez seja também uma das razões pelas quais o voto islandês merece atenção.
A Islândia já tem acesso ao mercado único através do Espaço Económico Europeu e integra o Espaço Schengen. Mantém, ao mesmo tempo, controlo sobre áreas que considera fundamentais, nomeadamente os seus recursos pesqueiros.
Por isso, para uma parte significativa dos islandeses, a questão não é escolher entre “Europa” e “isolamento”.
É saber se uma integração ainda maior lhes traz vantagens suficientes para compensar a perda de margem de decisão.
Desta vez, entenderam que não.
E Portugal?
Portugal entrou na União Europeia( então CEE)há já 40 anos. Beneficiou enormemente dessa integração. Não vale a pena negar isso.
Mas também não vale a pena transformar a adesão numa espécie de dogma que dispense qualquer discussão.
Devemos poder perguntar o que ganhámos, o que perdemos e onde estamos hoje, quando comparado com países vindos do antigo bloco de leste que entraram mais tarde e que já nos ultrapassaram em vários aspetos.
Porque continuamos tão dependentes do exterior?
Porque temos uma economia pouco industrializada?
Porque tantos jovens continuam a procurar fora aquilo que não encontram cá?
Porque a habitação se tornou inacessível para uma parte crescente da população?
E porque é que, quando grandes erros financeiros acontecem, a fatura acaba tantas vezes por chegar ao cidadão comum?
Estas perguntas não são contra a Europa.
São perguntas sobre o lugar de Portugal na Europa.
Eu quero Portugal na Europa.
Mas quero também um Portugal capaz de defender os seus interesses, de decidir sobre sectores estratégicos e de responsabilizar quem toma decisões com consequências para todos.
A integração europeia deve servir os cidadãos e os países que a construíram. Não pode ser uma desculpa para considerar inevitáveis decisões que são, no fundo, escolhas políticas.
A Islândia acabou de fazer uma dessas escolhas.
Pode vir a arrepender-se?
Pode, daqui a alguns anos, concluir que teria sido melhor avançar.
Mas decidiu.
E isso é o mais importante.
Num tempo em que tantas decisões nos são apresentadas como inevitáveis, o pequeno exemplo islandês lembra-nos que a democracia continua a ser isto:
Poder dizer sim. E poder dizer não.
Talvez Portugal também devesse voltar a discutir, sem tabus, até onde queremos ir na construção europeia.
Não para sair da Europa.
Mas para saber exatamente que Europa queremos e que Portugal queremos dentro dela.