O artigo “Burnout nos Médicos Internos: Uma Perspetiva Atual” analisou 22 artigos científicos, publicados entre 2000 e 2024, e a prevalência identificada varia entre 17% e 75%, o que, segundo as investigadoras, evidencia “a heterogeneidade metodológica e a necessidade de maior investigação e compreensão”.
Apesar dessas diferenças, a revisão conclui que o ‘burnout’ é frequente entre médicos internos, com valores superiores a 50% em vários estudos, sobretudo no primeiro ano do internato e em determinadas especialidades, sendo o fenómeno descrito como multifatorial e fortemente influenciado pelas condições organizacionais.
O artigo, publicado na revista científica da Ordem dos Médicos, cita um estudo realizado em 2023 pelo Conselho Nacional do Médico Interno da OM, com 1.737 respostas, segundo o qual 84,8% dos inquiridos disse fazer horas extraordinárias e trabalhar, em média, 52,8 horas por semana, acima da referência europeia de 48 horas semanais.
No mesmo estudo, 61% dos inquiridos identificaram a carga de trabalho excessiva como principal fonte de sofrimento psicológico e 46% referiram falta de apoio institucional.
Além disso, 29% disseram ter sofrido assédio ou abuso de poder durante o internato, 18% ponderaram abandonar a formação devido ao esgotamento e 37% manifestaram incerteza profissional quanto ao futuro.
O artigo alerta para as consequências do ‘burnout’ na saúde dos médicos e na prestação de cuidados, sublinhando que o esgotamento profissional está associado a dificuldades no desempenho e pode afetar a segurança dos doentes, embora a maioria dos estudos analisados não permita estabelecer relações causais definitivas.
Também assinala as diferenças entre especialidades: Um dos estudos incluídos, que reuniu 31 estudos e cerca de 9.000 médicos internos, identificou prevalências de ‘burnout’ de 48,3% nas especialidades médicas e de 57,1% nas especialidades cirúrgicas.
Em especialidades com forte componente emocional, como a psiquiatria e a pediatria, estudos longitudinais identificaram taxas de esgotamento emocional superiores a 60%, frequentemente associadas ao contacto prolongado com doentes vulneráveis e a dificuldades de comunicação com os familiares.
Outro estudo registou valores superiores a 70% em obstetrícia e ginecologia, atribuindo estes valores à imprevisibilidade dos casos, ao fardo emocional associado à perda fetal.
Perante estes resultados, as autoras defendem intervenções integradas, com prioridade para as medidas institucionais, em vez de estratégias exclusivamente individuais, assim como a reorganização dos horários, períodos de descanso adequados, supervisão estruturada, programas de apoio psicológico e mecanismos confidenciais de comunicação de problemas.
A revisão refere iniciativas que combinaram horários mais equilibrados com supervisão estruturada e nas quais foram registadas reduções de 22% na exaustão emocional e de 18% na despersonalização, além de um aumento de 25% na satisfação.
“Estes resultados dizem respeito às intervenções descritas nos estudos e não demonstram que os mesmos efeitos possam ser reproduzidos em todos os serviços”, sublinha.
Segundo as autoras, a investigação disponível apresenta limitações: dos 22 artigos analisados, apenas um era longitudinal, dificultando a compreensão da evolução do fenómeno ao longo do tempo.
Cerca de 80% dos estudos utilizaram o questionário ‘Maslach Burnout Inventory’, mas a diversidade de métodos e critérios de avaliação limita a comparação direta das prevalências.
O estudo recomenda políticas de proteção da saúde mental dos internos, mecanismos formais de prevenção e monitorização e maior integração desta questão na organização da formação médica.
Defende ainda a realização de estudos multicêntricos e longitudinais, com amostras de maior dimensão, para melhorar o conhecimento sobre a evolução do problema e avaliar a eficácia das medidas adotadas.
As autoras concluem que “o ‘burnout’ deve ser abordado como um risco ocupacional que exige uma resposta coordenada das instituições de saúde, das entidades responsáveis pela formação médica e das organizações profissionais”.